Aelyn
O carro saiu do estacionamento, mas não na direção que eu esperava.
Fiquei olhando pela janela por alguns segundos antes de perceber que estávamos tomando uma rota completamente diferente da minha casa.
"Onde estamos indo?"
O Luciano tinha aquele sorriso de quem sabe de alguma coisa.
"Dar uma volta."
"Dar uma volta?"
"Isso." Ele virou numa rua mais tranquila, daquelas de fim de noite que têm aquela luz amarela espaçada e quase nenhum carro. "Quero ver quando ele vai começar a te ligar."
Eu ri.
Não aquele riso contido de quem está sendo educada, o outro, o genuíno, que saiu antes que eu decidisse deixar.
"Acho que ele não faria isso", eu disse, quando passou. "Ainda mais que ele vai perceber que perdeu o controle e voltar para o modo robô dele."
O Luciano me olhou de relance, com aquele sorriso que não era surpresa.
"Você parece conhecer bem demais todos os reflexos dele."
"Conheço." Encostei no banco, olhando para a janela. As ruas passavam, quietas. "Luciano, esse homem bagunçou toda a minha vida." Fiz uma pausa. "E quando eu digo toda, é toda."
Ele não disse nada. Deixou eu continuar.
"Eu não consigo ficar com ninguém sem pensar nele. Não consigo fazer algumas coisas porque fico imaginando o que ele faria, o que ele pensaria, se ele aprovaria." Soltei o ar. "Eu sou patética. Completamente patética. Enquanto ele vive a vidinha dele perfeita, sem demonstrar sentimento por nada e por ninguém, eu estou aqui há anos com ele ocupando um espaço que ele nem sabe que tem."
O silêncio durou alguns segundos.
"Ele sempre foi assim?", o Luciano perguntou, daquele jeito dele, sem julgamento, só curioso, aquela habilidade específica de fazer perguntas que abrem coisas em vez de fechar.
"Sempre." Fiquei quieta por um segundo, pensando em como explicar. "Você sabe a história dele, né? Não sei se te contei tudo."
"Acho que não contou, não."
"Ele foi abandonado pela mãe biológica. Viveu em orfanato por dez anos até meu tio descobrir a existencia dele e o achar. Ficou cego." Respirei fundo. "E quando chegou na família, era um menino de dez anos que nunca tinha tido nada que fosse dele de verdade, não uma cama, não um quarto, não uma pessoa que fosse só dele." Olhei para a janela. "Eu tinha seis anos e queria ajudar. Queria ser a pessoa que ficasse perto. E sei lá quando isso mudou, quando deixou de ser só querer ajudar e virou outra coisa." Sacudi levemente a cabeça. "Eu só queria ter sabido proteger meu coração antes."
O Luciano estendeu a mão e a colocou sobre a minha por um segundo, daquele jeito que era completamente fraterno, um amigo tentando acolher o outro.
"Você é uma boa pessoa, Aelyn", ele disse. "Não tem por que se martirizar."
Fiquei olhando para as mãos.
"E agora entendo mais os traumas dele." A voz dele mudou levemente, não era mais o amigo, era o médico, aquela camada que aparecia quando ele estava sendo preciso sobre alguma coisa. "Eu como especialista de coração posso te dizer uma coisa."
Olhei para ele.
"Ele não te afasta porque não te quer." Ele me encarou por um segundo antes de voltar os olhos para a estrada. "Ele te afasta porque tem medo de te perder. Tem medo de não poder estar perto de você se errar alguma coisa." Fez uma pausa. "Ele sabe o gosto da perda, Aelyn. Sabe o que é não ter. Então ter o mínimo de você é melhor do que arriscar e não ter nada."
Fiquei quieta.
Aquilo ficou latejando em minha mente. Não é como se eu já não tivesse pensado sobre isso. Mas o Felipe não era assim, era?
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