Cássio Ravelli
Ela apagou por um segundo.
Foi rápido, mas o suficiente para gelar tudo dentro de mim.
Segurei Branca antes que o corpo cedesse de vez e a deitei no sofá com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrá-la ainda mais. Fui até a cozinha, peguei água, açúcar, qualquer coisa que pudesse trazê-la de volta. Quando retornei, ela já tinha os olhos abertos, vidrados, respirando curto.
O choque ainda estava ali.
Eu a observei em silêncio. Não como juiz. Não como homem acostumado a sustentar o impacto de desgraças alheias. Olhei para ela como alguém que reconhecia aquela dor. A dor de uma mãe que perdeu tudo. Que fez um ato de bondade quando o mundo só lhe tirava. E que agora estava sendo punida por isso.
Odiava Clara. Odiava com todas as minhas forças.
Eu iria fazer aquela maldita pagar. Iria fazer ela sofrer tudo que estava fazendo eu e a Branca passar. Eu aguentava o tranco. Sempre aguentei. Mas Branca… ela já tinha perdido demais.
"Espera…" A voz dela saiu quebrada. "O coração do Pedro está…"
Ela não conseguiu terminar.
O choro veio de verdade dessa vez. Cru. Rasgado. Branca se curvou sobre si mesma e eu a puxei para perto, envolvendo-a num abraço que não pedia permissão. Aquela dor, aquele desespero… era para estar no meu peito, não no dela. Se não fosse por ela, eu estaria enterrando minha filha.
"Obrigado." As palavras escaparam antes que eu pensasse nelas. "Obrigado, Branca. Nunca vai ser o suficiente. Nem para você… nem para o Pedro."
Ela chorou ainda mais, agarrada à minha camisa, como se aquilo fosse a única coisa que a mantinha de pé. Senti a umidade atravessar o tecido e atingir minha pele.
Eu não sabia exatamente o que sentir. Gratidão. Culpa. Fúria. Tudo junto. Mas a dor dela… doía em mim.
Quando Branca se afastou, o rosto vermelho, os olhos inchados, a voz saiu em pedaços.
"Então por que estão dizendo que eu vendi os órgãos dele?" Ela respirou fundo, tentando se manter inteira. "Eu fiz tudo certo. Assinei os papéis de doação. Não recebi nada. Nada. Por quê?"
Indiquei o sofá, e nos sentamos.
"Você e a Clara eram amigas?"
"Clara?" Ela franziu o cenho. "A Clara do hospital? Era só uma conhecida. A gente quase não conversava e só…" Então ela pareceu entender alguma coisa. "Foi ela que me indicou esse trabalho."
O corpo dela enrijeceu e ela se levantou, se afastando de mim.
"Você conhece a Clara." Não foi uma pergunta.
Levantei-me também.
"Conhecia." Suspirei. "Ela era esposa de um funcionário meu. Ele morreu de câncer. Eu ajudei com tudo. Tratamento, custos, apoio."
"E o que isso tem a ver comigo?" Branca perguntou, já na defensiva.
Eu sabia que aquilo ia doer.
"Eu sabia que, se te oferecesse o trabalho de babá, você não aceitaria."

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