Branca Oliveira
Eu estava na cozinha com o celular apoiado na bancada, a minha atenção dividida entre a babá eletrônica e a panela no fogo baixo. Aelyn ainda desenhava, respirando tranquila, e aquilo me dava uma falsa sensação de controle.
Eu sabia que Cássio já tinha voltado. Vi pela babá, quando ele se sentou com a filha e os dois riam como se nada mais tivesse importância. Mas não imaginei que ele viria até ali.
Só percebi quando senti a presença.
Ele estava parado na porta da cozinha, observando em silêncio. Não sei há quanto tempo. Aquilo me fez prender a respiração por um segundo antes de continuar mexendo a panela, fingindo naturalidade.
“Você sabe que vai arranjar um problema enorme com a Glória, não sabe?”, ele disse, por fim.
Ri de lado, sem levantar o olhar.
“Não vou.” Continuei mexendo a sopa com calma. “Estou só ajustando o que ela já fez. Colocando mais sabor, deixando mais agradável ao paladar a Aelyn. Depois volto tudo para os mesmos potes.”
Olhei para ele por cima do ombro.
“Ela vai continuar achando que foi ela que fez.”
O canto da boca dele se ergueu num meio sorriso contido. Não era ironia. Era quase… cumplicidade.
Chegou mais perto.
Eu reparei na tensão nos ombros, na mandíbula dura demais, nos olhos atentos demais. Mas, ainda assim, ele falava comigo de um jeito diferente. Mais gentil. Mais humano.
Bem diferente do Juiz arrogante que eu estava acostumada.
“E que temperos são esses?”, perguntou. “Você sabe que a Aelyn não pode consumir sal ou açúcar em excesso.”
“Eu sei.” Assenti. “Mas o Pedro também nunca pôde.”
As palavras escaparam sem pedir licença.
Não olhei para ele. Continuei falando, como se aquilo fosse apenas um detalhe técnico.
“Aprendi a temperar com ervas. Alecrim, tomilho, louro. Dá sabor sem sobrecarregar o organismo. É saudável, o corpo agradece, e o paladar fica feliz. Assim a criança come, e não nos deixa desesperados.”
Peguei uma colher limpa na gaveta, mergulhei no caldo e ergui a mão, oferecendo.
“Quer experimentar?”
Ele se aproximou mais um passo.
Por um instante, achei que fosse pegar a colher da minha mão, mas não pegou. Ele ficou parado, esperando.
Meu pulso travou por meio segundo, mas entendi. Levei a colher até a boca dele. Quando seus lábios tocaram o metal, nossos olhares se cruzaram.
Foi rápido. Íntimo demais para ser ignorado.
O tempo pareceu hesitar antes de seguir adiante.
Ele fechou a boca, mastigou devagar, depois se afastou um pouco.
“Está bom”, admitiu. “Mas eu gosto mais salgadinho.”
Dessa vez, ri de verdade.
“Precisa limpar o paladar, senhor Ravelli.”
Ele soltou um som baixo, quase um riso abafado.

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