Cássio
O fórum tinha aquele cheiro de sempre: papel, café velho, ar condicionado que nunca estava na temperatura certa. Eu gostava disso. Tinha algo reconfortante na constância daquele lugar, na forma como ele funcionava independentemente do que estava acontecendo lá fora.
Deixei a mochila na sala, cumprimentei a assessora, peguei o café que ela já tinha deixado na mesa sem que eu precisasse pedir. Tinha duas audiências pela manhã, uma trabalhista que ia arrastar, e uma mais curta de instrução criminal que eu conhecia de cor. Rotina. Estrutura. O tipo de coisa que me ancorava quando tudo fora dali estava em movimento.
Me sentei, abri os autos da primeira audiência, e estava relendo o relatório quando bateram na porta.
"Doutor Ravelli."
Levantei o olhar.
O Delegado Souza estava na entrada, terno escuro, uma pasta fina embaixo do braço, com aquela expressão que eu já tinha aprendido a reconhecer, não era urgência, era apreensão. A diferença entre as duas era sutil, mas importante.
"Souza." Me levantei levemente. "Pode entrar. Sente-se."
Ele fechou a porta atrás de si, veio até a mesa e colocou a pasta na minha frente sem rodeios.
"Precisava que o senhor visse isso pessoalmente."
"Vejo que não são boas noticias." ele deu de ombros.
"E quando são? Na nossa área sempre são más primeiro." dei risada concordando e abri a pasta.
As primeiras páginas eram sobre a Emily, relatório de desaparecimento, confirmação da identidade, registros do hotel, linha do tempo montada pela equipe dele. Eu passei os olhos com a velocidade de quem leu centenas de relatórios assim, absorvendo o essencial sem precisar de cada detalhe.
Mas não era isso que ele tinha vindo me mostrar.
Virei a página. E parei.
O nome estava ali, num relatório de cruzamento de dados que a equipe tinha montado rastreando as movimentações financeiras ligadas ao Jonathan nos últimos dois anos. Transferências, contatos, registros telefônicos.
Ana Krieger.
Eu li de novo, mais devagar dessa vez.
Souza ficou em silêncio, me deixando trabalhar.
Não precisei de muito. Quinze anos de direito criminal ensinam a montar um quebra-cabeça antes de ter todas as peças, você aprende a reconhecer a forma do buraco antes de encontrar o que preenche. E aquele buraco tinha um contorno que eu conhecia.
Virei mais uma página.
Registros de ligações entre Ana e Jonathan nos dias anteriores ao acidente. Movimentação financeira atípica. Um pagamento, discreto, fracionado do jeito que quem entende de rastreamento fraciona, mas não discreto o suficiente.
O Pedro era filho do Jonathan com a Branca. Herdeiro direto. E Ana era a única outra herdeira do avô Krieger.
Eu fechei os olhos por meio segundo.
Com o Pedro vivo, a herança seria dividida. Com o Pedro morto e Jonathan preso ou desacreditado, Ana ficava com tudo.
Ela tinha mandado matar o próprio sobrinho.
E o Jonathan, por mais monstruoso que fosse, provavelmente nem sabia.
Fiquei olhando para a mesa por um segundo, sentindo as peças se encaixando uma por uma com aquela clareza fria que aparece quando você não quer que apareça.
"Ela está no radar como suspeita?", perguntei, a voz mais controlada do que eu esperava.
"Entramos com o pedido ontem à noite." Souza se inclinou levemente para frente. "Ainda é circunstancial, mas é consistente. Consistente demais para ignorar."
Eu assentei devagar.


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