Cássio Ravelli
Não tive uma boa noite de sono.
Na verdade, fazia tempo que eu não tinha uma noite inteira de verdade. Meu corpo acordou pesado, os ombros tensos, a cabeça latejando como se eu tivesse passado horas brigando comigo mesmo. E era bem provável que eu tivesse mesmo feito isso.
Sentei na cama e a primeira coisa que fiz, por puro reflexo, foi pegar a aparelho da babá eletrônica.
Minha filhinha dormia completamente relaxada. Tranquila. O rosto sereno, a respiração ritmada, sem suor, sem agitação. Sorri com isso, as reparei que a cama do lado já estava vazia.
Branca já não estava ali.
Observei a tela por alguns segundos a mais do que o necessário. Fazia tempo que minha filha não dormia daquele jeito. Sem sobressaltos. Sem medo. Sem dor.
Fechei os olhos por um instante.
Aelyn merecia ser assim todos os dias. Desde que descobrimos o problema cardíaco, o brilho da minha menina se apagou. Mas agora eu via, eu sentia que ela estava diferente e Branca era um dos motivos para isso.
Me levantei, tomei um banho rápido, me troquei e desci as escadas ainda ajustando o relógio no pulso. O cheiro vindo da cozinha chegou antes do som das vozes, mas os murmúrios logo se tornaram claros demais para serem ignorados.
Glória falava com aquele tom de desdém que eu conhecia bem.
“Então é isso”, dizia ela. “Você conseguiu o que queria. A nutricionista mandou um novo cardápio e agora parece que todo o trabalho que eu fiz até hoje não vale mais nada.”
A resposta de Branca veio calma. Firme. Sem elevar a voz.
“Não importa o que a senhora pense. A partir de agora, nós vamos seguir o novo cardápio da Aelyn. O organismo dela está em adaptação e eu não vou ignorar isso.”
“Não se ache demais”, retrucou Glória, ríspida. “Babás não duram muito por aqui. Logo você vai estar no olho da rua, como todas as outras.”
Houve um silêncio breve.
Quando Branca respondeu, havia algo diferente no tom. Um meio sorriso invisível, mas audível.
“Pela convicção com que a senhora fala, começo a achar que era uma das principais influenciadoras dessas demissões.”
Me aproximei mais da porta para ver a reação da governanta. Glória estava vermelha.
“Como ousa falar isso?”, elevou a voz. “Eu não faço nada! Meu patrão é rígido. E tipinhos como você não duram. Nós gostamos de ordem e você se confusão.”
Gostei da provocação.
Mas não era hora de assistir.
Entrei na cozinha.
“Bom dia, senhoras.” Minha voz saiu firme. “Mais problemas nesta cozinha?”
Glória se sobressaltou ao me ver. Branca, não. Continuou exatamente onde estava, mexendo algo no fogão com tranquilidade.
“Não, juiz Ravelli”, disse Glória rápido demais. “Só estou repassando com a babá a alimentação da pequena. Está tudo sob controle.”
Vi quando Branca revirou os olhos discretamente.
“Ótimo”, respondi. “Porque, a partir de agora, tudo o que a Branca observar sobre a Aelyn deve ser levado em consideração.”
As duas me olharam.


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