Laís
O telefone parece mais pesado na minha mão do que deveria. Não é só uma ligação. É a primeira porta. E talvez a única.
Eu sinto o André atrás de mim, perto o suficiente pra eu saber que ele está ali, mesmo sem olhar. A presença dele não pressiona, não invade, mas carrega uma expectativa calada que ecoa mais alto do que qualquer palavra.
O toque chama. Uma vez. Duas. Três. E então: "Alô, bom dia, instituição Casa Abrigo."
"Bom dia", eu respondo, firme, mas sem perder a calma. "Meu nome é Laís Bayron, eu sou advogada e estou entrando em contato sobre um possível caso envolvendo uma criança que pode ter passado por essa instituição há uns dez anos."
O silêncio do outro lado muda. Fica mais atento.
"Pois não… como posso te ajudar?" A mulher responde, agora mais cautelosa. Eu já esperava isso. E continuo.
"Eu tenho indícios de que essa é uma das instituições prováveis onde um recém-nascido pode ter sido entregue na época. A criança nasceu na data…" olho rápido para as minhas anotações, "25/02/2016 e, pelo que recebemos, ele provavelmente foi deixado aí poucos dias depois do nascimento."
O André se aproxima um pouco mais. Eu sinto. Mas não paro. "Além disso, temos uma característica específica que pode ajudar na identificação. Uma pequena mancha no rosto." Silêncio. Mais pesado dessa vez. Aperto levemente o telefone. "Eu tenho uma foto da criança no dia em que nasceu. Posso mandar pra conferência, se precisar."
Do outro lado, escuto um leve suspiro. E então a resposta vem mais formal. "A senhora entende que esse tipo de informação é sigilosa, correto?" Claro que eu entendo. E é exatamente por isso que já estou preparada.
"Perfeitamente. Inclusive, já dei início aos trâmites legais. A Vara da Infância foi acionada, assim como a delegacia da cidade. Estou formalizando o pedido de acesso aos registros, mas entrei em contato antes pra agilizar, considerando a urgência do caso. É um caso de sequestro. O pai da criança não foi informado de sua existência. A genitora fez tudo sem a aprovação do pai."
Silêncio. Mas agora não é resistência. É avaliação.
"Vocês sabem se a mãe biológica deu algum nome para a criança?", ela pergunta. Eu travo por um segundo. Porque essa é a parte cruel.
"Não sabemos", respondo, sem rodeios. "O pai tomou conhecimento da existência dele ontem. Estamos tentando localizar com base nos registros da época." O peso disso chega. Mesmo por meio da linha.
Vejo o André fechar os olhos por um segundo ao meu lado. E isso me dá mais certeza ainda de que não posso vacilar.
"Eu posso verificar os registros internos", a mulher diz, mais baixa agora. "Mas preciso que a senhora mande essas informações por e-mail. Com todos os dados possíveis."

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