Laís
O sono não vem. E eu já sabia que não viria. Mesmo deitada ao lado dele, sentindo a respiração pesada tentando encontrar algum ritmo depois de tudo que aconteceu, minha cabeça não para. Pelo contrário, cada minuto em silêncio parece aumentar tudo, como se a noite fosse um lugar perigoso demais pra deixar os pensamentos soltos.
Eu olho pro André por alguns segundos. Ele está dormindo. Ou pelo menos parece, mas mesmo descansando, o rosto dele não está em paz. A tensão ainda está ali, marcada, como se o corpo tivesse desligado, mas a mente não tivesse deixado. E isso me doí. Porque eu sei que se eu fechar os olhos agora, eu vou ver a mesma coisa que ele. Um menino sozinho, sem entender nada.
Me levanto devagar, com cuidado pra não fazer barulho, pego o notebook e saio do quarto. Não penso duas vezes. Meu corpo já sabe o que fazer antes mesmo de eu transformar isso em decisão. Se eu não consigo dormir, eu trabalho.
A sala está silenciosa, iluminada só pela luz fraca que vem da janela, e eu me instalo ali como se fosse mais um dia normal. Mas não é. Nada disso é normal. Abro o computador, puxo as primeiras informações, revejo mentalmente tudo que foi dito, cada detalhe que a Emily entregou, cada nome, cada data, cada buraco. Meus dedos começam a se mover rápido pelo teclado, cruzando informações, buscando registros, abrindo caminhos. Me coloco como advogada, não mais como esposa. É isso que eu sou. E agora é isso que ele precisa.
As horas passam sem que eu perceba. Papéis começam a se juntar na mesa, anotações rabiscadas com pressa, conexões sendo feitas, algumas possibilidades descartadas, outras sendo abertas. Eu entro no ritmo, naquele estado em que o mundo some e só existe o objetivo na frente. Mas, no fundo, não é só trabalho. Nunca foi.
Porque em algum momento eu paro. E fico olhando pra uma das linhas que eu escrevi. "Idade aproximada." E isso me leva pra outro lugar. Outro tempo. Outra vida. Respiro fundo, apoiando a caneta no papel, sentindo o peso da memória chegar sem pedir licença.
Eu também fui uma criança sem pais. Não do mesmo jeito. Mas fui. E eu lembro. Lembro de como era olhar ao redor e sentir que alguma coisa estava faltando o tempo todo, mesmo quando tudo parecia normal. Lembro da sensação de vazio, da pergunta que nunca tem resposta, da vontade enorme de ter alguém que simplesmente estivesse ali. Minha avó foi tudo pra mim. Mas mesmo assim não apagava. E agora eu penso nele. Nesse menino. No que ele pode ter sentido. E isso me destrói por dentro.
"Você dormiu?" A voz do André me tira do pensamento, e eu levanto o olhar, encontrando ele parado ali me observando com uma expressão que mistura surpresa e algo mais suave. Balanço a cabeça.
"Não consegui." Ele solta uma risada baixa e se aproxima devagar.
"Achei alguém mais focado do que eu." Eu fecho o notebook por um segundo e apoio os braços na mesa.
"Não é foco, André. É necessidade." O silêncio se forma e eu continuo. "Eu fiquei pensando em tudo. Em como isso pode ter sido pra ele, em como ele pode ter vivido." Minha voz baixa um pouco. "Eu cresci sem os meus pais. Não do jeito dele, mas eu sei o que falta. Eu sei o que dói."


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