André
O silêncio ainda está pesado quando ela tenta de novo.
Eu sinto antes mesmo dela falar. Já conheço esse jeito dela, essa insistência que aparece toda vez que ela percebe que está perdendo. Emily respira fundo, como se estivesse juntando forças, e quando abre a boca, vem exatamente o que eu esperava.
Mesmo assim, me atinge.
"Se você quiser… eu posso ajudar a procurar ele."
Eu fecho os olhos.
Mas ela continua.
"A gente pode resolver isso juntos… podemos ser uma família."
O mundo para. E dessa vez não é choque.
É nojo. Nojo do tipo de pessoa que ela se tornou.
Me viro devagar e encaro ela com uma raiva que não dá mais pra esconder.
"Você perdeu completamente o juízo?"
Minha voz sai baixa. Quase uma ameaça.
Mas antes que eu continue, o som do tapa corta o ar.
Emily vira o rosto pro lado na mesma hora, o corpo todo parando, como se ela não tivesse conseguido processar ainda o que aconteceu. Olho pra minha mãe. Ela ainda está com a mão no ar, o peito subindo e descendo com força, os olhos cheios de uma raiva que eu nunca vi nela.
"Você não tem vergonha?"
A voz dela treme. Mas não é fraqueza. É revolta.
"Como você tem coragem de falar isso depois de tudo que fez?"
Emily tenta se recompor. Leva a mão ao rosto. Não consegue esconder o choque.
"Se você quisesse uma família com o meu filho…" minha mãe dá um passo à frente. "…você nunca teria feito o que fez."
O silêncio pesa.
"Eu tenho certeza que o André teria te perdoado lá atrás." A voz dela baixa, mas não cede. "Pelas traições, pelas mentiras… ele teria perdoado. Porque é assim que ele é."
Os olhos da Emily enchem de lágrimas.
"Mas agora?" Minha mãe balança a cabeça. "Depois de dez anos… depois de destruir a vida dele e de uma criança que não teve culpa de nada?"
Ela ri. Um riso amargo e curto.
"Você não quer perdão. Você quer de volta tudo que jogou fora."
Emily não responde. Porque não tem o que dizer.
"Eu mandei você sumir." Minha voz corta o que ainda restava de espaço naquele ambiente. "Você já fez o suficiente."
Dou um passo sem olhar pra ela. Não porque evito, é porque ela não merece mais esse espaço.
"Pega o seu dinheiro. E vai embora."
Não espero resposta.
Não quero.
Caminho até a janela e apoio a mão no vidro frio. Tento respirar. Tento parar com o que ainda ecoa na minha cabeça. Mas o vidro está frio, o peito está quente, e nada disso resolve o que está preso aqui dentro.
Filho. Meu filho. Perdido. E eu não sabia nem que ele existia.
"Vamos pro quarto."
A voz da Laís vem baixa e firme o suficiente para me alcançar. Viro o rosto, encontro o olhar dela, e é ali que eu acho alguma coisa parecida com chão.
"Você precisa descansar." Ela se aproxima. "Eu vou te dar um remédio pra dor… você vai ficar bem."
Não sei se acredito.


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