Cássio
Ainda estou com os braços ao redor da Branca quando vejo a Laís surgir na recepção.
Ela entra devagar, os olhos varrendo o ambiente como se ainda estivesse tentando entender se tudo realmente acalmou ou se é só uma pausa antes de mais um desastre. O rosto dela está abatido, cansado… mas a esperança ainda está ali. Do jeito que só quem passou por um inferno recente consegue ficar.
Ela olha em volta mais uma vez, procurando por algo ou por alguém.
"Ué… sua mãe foi embora assim tão fácil?"
A Branca solta uma risada baixa, sem humor nenhum.
"Quem dera fosse."
Ela afasta um pouco o corpo do meu, mas ainda mantém a mão apoiada em mim, como se precisasse desse contato para se manter firme.
"Tive que colocá-la para fora", continua. "A Emily apareceu e queria entrar de qualquer jeito… e ela ainda apoiou. Mandei as duas embora."
Vejo o rosto da Laís endurecer na mesma hora.
"Aquela mulher não dá sossego nunca. Nem quando o André precisa de paz, ela para. Que horror, e sua mãe também... meu Deus. O André está tão bravo com ela."
Branca não deixa o peso daquilo crescer. Ela se aproxima e a abraça.
"Esquece elas." A voz dela é mais suave agora. "Como ele está?"
Laís solta o ar devagar.
"Bem… dentro do possível." Ela passa a mão pelos cabelos, ainda meio perdida. "Ele quer ver vocês. Eu saí pra dar esse espaço, porque só pode dois visitantes por vez, mas assim que sairem eu volto pra ficar com ele. Com a Emily rondando, vai saber do que ela é capaz."
"Você está certa. Até ele ir para casa, é bom sempre ter alguém com ele." Sorrio para ela.
"Então não precisam se preocupar, eu vou ficar com ele o tempo todo." Branca a abraça de novo, mas ainda vejo o cansaço em seus olhos.
"Vai tomar um café", digo, com um tom mais leve do que realmente estou sentindo. "Respira um pouco. O pior já passou."
Ela me encara por um instante, como se estivesse decidindo se pode acreditar nisso. Depois assente.
"Tá bom. Vão lá ficar com ele..."
Eu e Branca caminhamos em direção ao quarto de André.
O hospital ainda carrega aquele clima pesado de quem acabou de viver uma tragédia que ainda não terminou de se acomodar.
Quando entramos no quarto, encontro André sentado na cama, olhando pela janela. Pensativo. Acredito que ser baleado o mostrou algo que ele não esperava perder tão cedo.
Branca não espera. Ela atravessa o espaço entre eles em segundos e o abraça com cuidado, como se ele fosse feito de vidro.
"Você deu um susto enorme na gente."
A voz dela falha no meio da frase.
Eu me aproximo logo em seguida, apoiando uma das mãos na beirada da cama.
"É… acho que está na hora de você começar a andar com colete à prova de balas igual eu."
Ele solta um sorriso de canto, cansado.
"É tô achando também. Depois me passa seu fornecedor", ele responde. "Vou mandar fazer um pra mim e um pra Laís."
Branca se afasta um pouco, mas ainda segura o braço dele, como se não quisesse perder o contato.
"Quem você acha que pode querer a morte dela?" Ela pergunta. "Ela disse que foi o Jonathan, mas… ele nem conhece a Laís direito."
André solta o ar devagar. E eu reconheço aquele tipo de silêncio. É o silêncio de quem já chegou em uma conclusão que não gosta.
"Eu estava pensando nisso", ele começa, a voz mais baixa. "E acho que tem dedo da Emily aí."


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