Branca
Eu ainda estou na recepção quando a porta do corredor se abre com força.
Minha mãe sai de lá de dentro completamente alterada, o rosto vermelho, a respiração descompassada, os olhos cheios de uma indignação que eu conheço bem demais.
Por um segundo, eu só observo. Então… eu rio. Sem humor nenhum.
"Eu te avisei para não se intrometer."
Ela se vira para mim como se tivesse levado um tapa.
"Seu irmão me expulsou daquele quarto como um cachorro!" ela dispara, furiosa. "Um cachorro, Branca! Depois de tudo que eu fiz por vocês!"
Cruzo os braços, apoiando o peso em uma das pernas.
"Ele só te tratou do mesmo jeito que você tratou a Laís. Viu como não é bom?"
O olhar dela queima em mim, mas antes que ela consiga rebater, meu foco muda.
Cássio está alguns metros atrás, falando ao celular, sério, concentrado. Pelo tom, eu sei que ele está organizando tudo. Segurança, movimentação, rotas para a saída da Aelyn da escola.
Meu coração aperta só de pensar nela.
Vejo ele passar a mão pelo cabelo enquanto fala com alguém, provavelmente a Tamara, pedindo que busque a Aelyn na escola e a mantenha ocupada, distraída o suficiente para não perceber o que está acontecendo… para não sentir o peso desse caos que, de repente, tomou conta de tudo.
Ele está sempre cuidando. Sempre um passo à frente.
E, por um instante, a culpa pela nossa discussão mais cedo aperta meu peito, silenciosa, incômoda… mas não apaga o que é impossível não ver.
Mesmo no meio de tudo isso… eu enxergo ele. A forma como assume o controle sem precisar pedir. Como sabe exatamente onde cada peça deve estar.
Como, de algum jeito, ele sempre encontra um caminho quando tudo parece prestes a desmoronar.
Mas antes que eu possa me perder nisso, um som corta o ambiente. Gritos de desespero.
"Cadê ele?"
Viro o rosto na mesma hora.
A porta principal se abre com violência, e Emily entra praticamente correndo, os olhos arregalados, a respiração descompassada, o cabelo levemente fora do lugar, coisa rara nela.
"Cadê ele? Onde está o meu marido? Onde ele está?!"
Meu corpo enrijece instantaneamente. O que aquela malditaa queria agora?
Caminho na direção dela antes mesmo de pensar.
"Você está fazendo o quê aqui?"
Mas ela nem me escuta. Continua olhando em volta, desesperada, como se fosse desmaiar a qualquer momento.
Mamãe, que estava ao meu lado, muda completamente de postura.
Corre até ela.
"Calma, minha filha, calma…"
Eu travo. Olho para aquilo incrédula por um segundo.
"Sério mesmo?" minha voz sai mais alta do que eu planejava. "Ela não tem o direito de estar aqui."
Emily finalmente me olha. E eu vejo ali, não é só desespero. É estratégia.


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