André
Quando saio do presídio, a sensação é de que o ar ainda está pesado dentro dos meus pulmões.
Jonathan sempre teve esse efeito. Mesmo preso, ele consegue fazer tudo parecer mais perigoso.
Dirijo sem realmente perceber o caminho. As palavras dele ainda ecoam na minha cabeça.
Peças no tabuleiro. Sacrifícios.
Como se a vida da minha irmã fosse apenas parte de algum jogo doentio.
Jonathan sempre foi louco, mas parece que esses últimos anos fizeram ele surtar ainda mais.
Tenho que alertar Cássio de que, mesmo preso, ele pode estar armando algo... não só contra ele, mas contra a Branca também.
A última coisa que percebo é quando paro na frente do prédio da Laís. Com certeza eu tenho que trazer logo minhas coisas para lá. Não vejo nenhum outro lugar como meu lar.
Quando a porta do apartamento abre, encontro exatamente o que precisava ver.
Laís está de pé na cozinha. Usando apenas minha camisa. O cabelo ainda bagunçado. Uma xícara de café nas mãos.
Ela me observa por um segundo, analisando meu rosto.
"Madrugou doutor? Eu liguei pra você."
Minha garganta aperta um pouco.
"Eu sei."
Ela se aproxima alguns passos.
"Então por que não me atendeu?" solto a chave na mesa e apoio minha mão na mesma, enquanto a encaro.
Os olhos dela percorrem meu rosto com cuidado.
"Está tudo bem?"
Por um momento, penso em dizer que sim, mas não consigo. Então apenas a puxo para meus braços e ela não pergunta nada, só me abraça de volta.
O calor do corpo dela, o cheiro do café e aquele silêncio confortável fazem alguma coisa dentro de mim desacelerar.
"Jonathan está tramando alguma coisa", digo finalmente.
Ela continua com os braços ao redor da minha cintura.
"Ele sempre está, André. O que aconteceu além disso?"
"Mas dessa vez é diferente." Respiro fundo. "Acho que estamos atrasados."
Ela levanta o rosto para me olhar.
"Atrasados?"
"Estamos deixando passar alguma coisa."
Passo a mão pelo cabelo, frustrado.
"Ele está movendo peças e a gente nem sabe quais. Eu fui lá na cadeia tentar entender se ele matou a Glória, e sim foi ele, mas está tranquilo demais com isso. O que ele fez que a gente não sabe?"
Laís segura meu rosto com calma.
"Então vamos descobrir."
Eu solto uma risada cansada.
"Precisamos de mais provas. Precisamos inocentar o Cássio de vez antes que Jonathan encontre outro jeito de atacar."
Ela me abraça de novo.
"Calma, nós vamos descobrir." A voz dela é firme. "Você sempre resolve tudo correndo. Mas às vezes as coisas também se resolvem no tempo certo."
Eu encosto a testa na dela.
"Eu só não quero que eles sofram mais."
Laís sorri de leve.
"E não vão."
Então ela se afasta um pouco.
"Na verdade…"
Ela pega a pasta que está sobre a mesa de jantar.
"Talvez a gente tenha acabado de resolver uma parte disso."



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