André
Meu celular vibra pela terceira vez na mesa de centro. Minha mãe não para de ligar. E já nem rejeito mais, só deixo no silencioso, para não incomodar a Laís.
Não quero mais me envolver nisso hoje.
Desligo a tela e encosto no sofá do apartamento da Laís. Engraçado como, em poucas semanas, esse lugar já parece mais minha casa do que a minha própria.
Laís está na cozinha, preparando um chá, que, na visão dela, é o que precisamos agora. Mas minha mente não desliga. Eu quero descobrir o que está por trás de todo esse teatro e encenação.
Demorei tanto para conquistar a confiança de Laís, para ela dar uma chance para o que estava nascendo entre nós, que não ia deixar uma qualquer destruir tudo.
Solto os botões da camisa devagar, deixando o tecido aberto no peito. O dia foi longo demais para continuar vestido como se ainda estivesse no tribunal. Tiro os sapatos e deixo que o chão gelado me traga de novo a realidade.
Caminho até a cozinha, e a vejo de costas para mim, concentrada na caneca com água prestes a ferver.
Sem dizer nada, a abraço por trás. Meu queixo encosta no ombro dela.
“Você acharia muito ruim se eu viesse morar aqui com você?”
Ela para por um segundo. Vira o rosto por cima do ombro.
Eu espero a resposta. E, pela primeira vez naquele dia, sinto um pequeno nervosismo.
Então ela sorri.
“Não.”
Ela desliga o fogo.
“Na verdade, eu ficaria muito feliz.” Sorrio, sentindo uma paz nova no peito.
Beijo a bochecha dela e depois o cabelo.
“Me desculpa de novo por toda essa situação.” Suspiro. “Eu não sei o que deu na minha mãe para acolher aquela mulher.”
Laís se vira de frente para mim.
Os olhos dela analisam meu rosto com cuidado.
“Quero que seja brutalmente sincero comigo, André. De verdade…” Ela hesita. “Você não sente mais nada pela sua ex?”
Levo a mão ao rosto dela, segurando sua bochecha. Meu polegar desliza devagar sobre o lábio dela, devagar. Sentindo a textura da sua pele perfeita sob meu tato.
“Não.” Respiro fundo. “Demorei muito tempo para entender quem ela realmente era.” Olho para o chão por um instante, envergonhando-me de tudo que já fiz por ela. “Mesmo depois de tudo… nós ficamos algumas vezes.”
Ela não reage. Só continua me ouvindo.
“Meu coração queria perdoar.” Dou um pequeno sorriso amargo. “Mas toda vez eu descobria alguma coisa nova.” Levanto os olhos novamente e não vejo julgamento, só compreensão. “Alguma coisa podre.” Faço uma pausa. “E isso matou tudo que eu ainda sentia.”


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