Cássio
Aelyn estava encaixando a última peça do quebra-cabeça quando levantou o rosto de repente.
“Tia Branca está demorando.”
Olhei para o relógio da parede. Sete minutos. Era rápido demais para entrar em pânico, mas mesmo assim algo apertou forte no peito, como se o ar tivesse ficado mais pesado de uma hora para outra.
“Está mesmo”, falei, tentando manter o tom leve enquanto me levantava do sofá. “Vou ver o que aconteceu.”
Peguei o celular e liguei para Marcos.
“Marcos, a Branca desceu com o lixo agora há pouco. Vai até o depósito e vê se está tudo bem. Ela já deveria ter voltado.”
Eu queria descer eu mesmo. Queria correr até lá, ver com meus próprios olhos que ela estava voltando com aquele sorriso cansado que aparecia quando ela achava que tinha provado um ponto. Mas não ia deixar Aelyn sozinha. Nem por um segundo.
“Estou descendo agora, senhor. Já vamos retornar com ela para o apartamento.”
"Obrigada!"
Andei até a janela. Voltei. Andei de novo.
Oito minutos.
Nove.
Meu maxilar começou a travar.
O celular vibrou.
“Senhor…” A voz de Marcos veio estranha, hesitante, como se ele estivesse escolhendo as palavras com cuidado. “Ela não está aqui.”
Meu coração falhou uma batida.
“Como assim não está?”
“Depósito vazio. Nenhum movimento estranho. Tem certeza de que ela desceu? Parece que ninguém vem aqui faz um tempo.”
O mundo pareceu encolher ao meu redor.
“Ela desceu. Eu vi ela entrar no elevador.”
Já estava pegando a maçaneta, os dedos tremendo de leve.
“Aelyn, fica aqui. O papai já volta.”
“Mas...”
“Só fica filhinha. Vou buscar a tia Branca.”
Saí correndo.
O elevador parecia lento demais, cada segundo esticando como borracha. Quando as portas abriram na garagem, já estava correndo, os passos ecoando no concreto frio.
“Branca!”
Minha voz ricocheteou pelas paredes, voltando vazia.
Os seguranças vieram atrás de mim, correndo também.
“Procurem! Cada canto!”
Fui direto para o depósito de lixo e vi as sacolinhas que ela tinha decido. Ela esteve ali. Ela realmente fez o que falou, mas onde ela estava agora?
Só o cheiro de lixo e concreto úmido.
Nada dela.
Nada.
“Puxem as câmeras. Agora.”
Não é possível.
Não depois de tudo. Não aqui. Não com toda a segurança.
Subi de volta quase sem sentir os pés tocando o chão, o peito ardendo.
Aelyn estava na sala, sentada no sofá, segurando uma peça do quebra-cabeça no colo como se fosse um escudo.
“Ela já voltou?”
Forcei um sorriso que deve ter saído torto.
“Já já.”
Mentira.
O chefe de segurança entrou minutos depois com o tablet na mão.
O rosto dele estava branco.
“Senhor… precisamos ver isso.”
Peguei o tablet.
A imagem da garagem apareceu. Branca andando com os sacos de lixo.
Sozinha.
Dois homens de uniforme da minha equipe estavam lá.
Minha.
Um deles fala algo baixo, quase casual.



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