Cássio Ravelli
Eu já não estava lendo nada.
As palavras dos processos haviam virado linhas borradas, misturadas com números, nomes e hipóteses que se atropelavam na minha cabeça. A investigação não era pequena. Não era simples. E definitivamente não era algo que pudesse ser ignorado.
Andei de um lado para o outro do escritório, o celular ainda na mão depois de desligar com Bayron. Aquilo exigiria estratégia. Cuidado. Tempo. Exatamente o que eu não tinha.
"Eu tenho inimigos demais para desconfiar de qualquer um. Foram tanto julgamentos que poderia ser..." minha mente tentava buscar o filho da puta que poderia ter feito aquilo comigo. Mas quem?
Foi quando, quase por reflexo, meus olhos voltaram para o monitor de câmeras.
Aelyn já estava na cama, descansando completamente tranquila, olhei no relógio e vi que já passavam das 10 da noite. "Pelo menos ela levou a sério o horário, mas então olhei para a cama onde ela deveria estar, e estava vazio. Branca não estava lá com ela.
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Virei o monitor completamente para mim. O sangue gelou, o coração disparou num ritmo que eu não aceitava sentir.
Aproximei o rosto da tela. Verifiquei outro ângulo. Depois outro.
Nada.
Saí do escritório sem pensar duas vezes.
Desci pela escada, passando pelo corredor com passos largos, ignorando tudo ao redor, já formulando mentalmente a bronca que daria. Branca tinha uma única função ali. Uma. E não incluía deixar minha filha sozinha nem por um segundo.
Olhei pela porta de vidro. Aelyn dormia.
Respirava tranquila, o rosto sereno, os fios devidamente ajustados. Tudo estava completamente perfeito, se não fosse a cama vazia ao lado.
Meu corpo relaxou um centímetro.
Então percebi.
O closet estava com a porta aberta.
Caminhei até lá, ainda tenso, e foi quando a vi.
Branca estava sentada no chão, encostada na parede, as pernas dobradas, o contrato apoiado sobre as coxas. Uma caneta na mão. Alguns parágrafos marcados com pequenas anotações à margem.
Não havia poltrona ali.
Nunca houve.
Por algum motivo que não soube nomear, aquilo me incomodou mais do que deveria.
"Levanta."
Minha voz saiu firme, controlada, como se fosse apenas mais uma ordem qualquer. Não deixei transparecer o desconforto estranho que senti ao vê-la daquele jeito, sentada no chão de um espaço que deveria ser minimamente digno.
Ela ergueu os olhos devagar.
"Fale baixo ou vai acordar a menina." ela disse ignorando meu olhar.
"Eu te pago para ficar ao lado dela, não para ficar aqui... Poderia ter lido o contrato lá com ela."
"Crianças dormem melhor com a luz apagada e eu não iria tirar a paz do sono dela por isso. Resolvi ler aqui, com a porta aberta, e com a babá eletrônica perto. Eu estava atenta a todos os movimentos." ela esticou o celular e vi que tinha colocado a câmera da babá eletrônica ali.
"Ainda assim..."


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