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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 128

Branca

A casa estava silenciosa outra vez, mas não era o silêncio leve e cheio de risadas de minutos atrás. Era o silêncio concentrado da rotina diária, o tipo que envolve sem sufocar. Aelyn estava no quarto, os fones enormes cobrindo as orelhas pequenas, a voz da professora ecoando baixinho sobre frações enquanto ela rabiscava no canto do caderno, provavelmente dragões ou castelos, porque matemática nunca a impedia de sonhar. Cássio estava no escritório, porta entreaberta, voz baixa e profissional numa chamada com o assistente dele, discutindo prazos e o andamento do fórum enquanto ele estava fora.

Eu estava na cozinha, cortando frutas. Organizando coisas pequenas: uma tigela aqui, um prato ali. Vivendo. Respirando sem o peso constante no peito. Eu tinha aprendido a valorizar esses momentos, depois de anos sentindo o ar rarefeito, como se cada inspiração fosse uma luta. Agora, era como se o mundo tivesse finalmente me dado permissão para existir.

A campainha tocou. Era para ser algo comum, mas meu coração deu um salto involuntário, como se meu corpo soubesse antes da mente que algo estava errado. Limpei as mãos no pano de prato, sentindo um formigamento nas palmas, e caminhei até a porta. Meu reflexo no espelho do hall me devolveu uma mulher normal: cabelo preso num coque frouxo, camiseta simples, sorriso residual no rosto. Nada de mais.

Abri a porta.

Era um entregador, uniforme genérico, boné baixo sobre os olhos. Uma caixa média nas mãos, sem remetente visível, só uma etiqueta branca com meu nome impresso em letras neutras.

“Entrega para Branca Oliveira”, disse ele, voz monótona, estendendo a prancheta.

“Pra mim?”, repeti, franzindo a testa. Assinei rápido, o coração acelerando sem motivo aparente. “Quem mandou?”

Ele deu de ombros. “Não sei, senhora. Boa tarde.”

Peguei a caixa, pesada o suficiente para ser algo substancial, e fechei a porta. Voltei alguns passos para o corredor, analisando a embalagem: papelão marrom, fita adesiva comum, nada chamativo. Mas algo no ar mudou. Uma frieza sutil que se instalou na nuca.

Cássio apareceu no corredor, saindo do escritório com o celular ainda na mão. Seus olhos caíram na caixa imediatamente.

“O que é isso?”

“Não sei”, respondi, tentando soar casual, mas minha voz saiu fina. “Uma entrega. Sem remetente.”

Ele não sorriu. O olhar dele mudou na hora, de relaxado para alerta, como um predador farejando perigo. “Deixa eu ver.”

“Pode ser só uma encomenda que eu esqueci”, falei, mas entreguei a caixa mesmo assim. Meu estômago já começava a revirar.

“Leva pra sacada”, ele disse, voz baixa, mas firme.

“Por quê?” Minha garganta secou.

“Pode ser qualquer coisa.” O jeito como ele falou “qualquer coisa” fez minha pele arrepiar inteira, como se as palavras carregassem veneno. Ele pegou a caixa da minha mão com cuidado excessivo, como se fosse uma bomba relógio.

Eu o segui até a varanda, o coração martelando no peito. O sol ainda brilhava, mas agora parecia frio, acusador. Ele apoiou a caixa na mesa de ferro, afastando-se um passo antes de rasgar a fita com a chave do carro. O som do papelão se abrindo ecoou como um rasgo.

Eu vi primeiro o papel de seda branco, fino, quase inocente.

Depois as fotos.

Muitas.

Espalhadas.

Caindo como folhas mortas no outono, uma por uma, se espalhando pela mesa e pelo chão.

Meu estômago afundou como uma âncora no abismo.

Eram fotos nossas.

Dentro do apartamento.

Na sala: eu e Cássio rindo no sofá, Aelyn entre nós, assistindo desenho.

128. Caixa surpresa 1

128. Caixa surpresa 2

128. Caixa surpresa 3

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