A culpa decorria do passado. Não fosse o acidente envolvendo Natália, ele e Melissa formariam o casal perfeito, alvo da inveja e admiração de todos.
Por isso, no fundo, ele realmente sentia que devia algo a Melissa.
E, ouvindo-a falar daquela maneira...
Ele se sentiu ainda mais culpado.
Pensando bem, duas pessoas que, não fosse um imprevisto, teriam se casado, já compartilhavam inúmeras mágoas e sentimentos, mesmo que não envolvesse mais amor. Sempre haveria...
E agora ela tinha que testemunhar dia após dia ele tratando bem a esposa, chegando ao ponto de gastar uma fortuna astronômica para comprar-lhe um colar inflacionado.
Colocando-se no lugar de Melissa, era compreensível o quanto ela devia sofrer.
Especialmente porque Melissa perdera o marido, o que a destituíra do direito de “exigir” ou “esperar” que um marido cuidasse dela ou lhe desse presentes luxuosos.
O tamanho da dor em seu coração devia ser imensurável.
Sérgio permaneceu em silêncio.
Não sabia o que dizer.
Percebendo o mutismo dele, Melissa retomou:
— Só precisava colocar para fora, apenas conversando com você.
Lágrimas marejaram seus olhos enquanto os mantinha baixos:
— Tenho tanta inveja ao ver como você trata a Nati. A gravidez é uma fase delicada para qualquer mulher; um período em que deveríamos receber o dobro de cuidado, mas eu... perdi essa chance para sempre.
Aquilo intensificou a angústia de Sérgio, deixando-o quase sufocado.
Melissa era, sem dúvida, digna de pena.
Mesmo que encontrasse um novo parceiro após o nascimento do filho, a ausência de um marido durante a gestação era uma realidade imutável.
Sérgio sentiu-se aflito e frustrado, quase desprezando a si mesmo por suas falhas.
Após um instante, conseguiu dizer apenas:
— Você... não pense demais nisso...
Melissa ergueu os olhos.
— É você quem não deve pensar demais, eu não tive qualquer segundas intenções. Só queria desabafar com você, porque é a única pessoa com quem posso falar sobre isso.

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