Natália também estava fervendo de raiva; para ela, o comportamento de Sérgio era não apenas enlouquecido, mas puramente provocativo.
Ela entendia perfeitamente o motivo.
Tudo isso porque era o primeiro dia de Melissa morando ali; para ele, o simples ato de Natália sair para jantar representava uma falha em receber a visita.
Assim...
Sérgio tentava a todo custo impedi-la de ir; arranjava pretextos para confrontá-la, chegando ao ponto de tentar manchar a amizade que ela tinha com Mário.
A fisionomia de Natália estava gélida enquanto encarava o marido.
Na esfera conjugal, as feridas poderiam persistir e não tinham como ser cortadas; aquilo era responsabilidade sua, por isso as suportava.
Mas se Sérgio achava que podia arrumar confusão, restringir a sua liberdade e ameaçá-la como se dissesse "se tentar sair hoje eu quebro as suas pernas"... ah, aquilo não ia colar.
Abalado, Sérgio apanhou o celular, porém a feição impaciente, muda e acusatória de Natália, que o olhava como se ele fosse um doente, fez a sua ira disparar.
Descontrolado, ele esbravejou:
— Você é burra como uma porta!
Natália arregalou os olhos, explodindo de raiva.
Cerrou os dentes e disparou:
— Se eu não fosse burra, jamais teria me casado com você!
A interrupção secou a fala de Sérgio; com a expressão escurecida de raiva, ele discou e ativou o viva-voz.
Depois de muitos toques, Mário atendeu a ligação; em paralelo, ouviam-se sirenes ao fundo.
Mário parecia impaciente e adiantou-se:
— De qualquer jeito, não vou te convidar para o jantar hoje.
A face de Sérgio fechou-se ainda mais e ele exigiu num tom duro:
— O que você me disse daquela vez, tem coragem de repetir?
Pelo som, pareceu que Mário se afastou do barulho; então perguntou:
— Que conversa?
Sérgio prosseguiu:
— Aquela vez que você disse que ia roubar a Natália de mim, tem coragem de dizer aquilo de novo?
O som de um riso escapou de Mário; embora achasse o questionamento de Sérgio completamente sem sentido, ele disse:
— E por que eu não teria coragem? Se você maltratar a Natália, eu tiro ela de você. A minha frase que não foi clara o suficiente, ou a sua capacidade de compreensão que é defeituosa?
Virando os olhos para Natália, Sérgio rosnou:
— Escutou, Natália? Ele acabou de confessar.
As palavras do homem assustaram Mário.
Por muito pouco, não deixou o cigarro escapar de entre os dedos.
Natália estava do lado dele?
Mário umedeceu os lábios, tragou o cigarro, sacudiu as cinzas; havia um tremor leve nas pontas dos seus dedos.
Firme, Natália cravou os olhos em Sérgio:
— Eu escutei, e daí?

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