A empresa estava com o ar ainda mais frio do que o costume.
Rafael sentava-se à mesa de vidro blindado, revisando contratos como se estivesse desmontando bombas: rápido, preciso, sem hesitar.
Moreira entrou sem bater — o que, em qualquer outro dia, seria uma sentença de morte.
Hoje, Rafael apenas ergueu os olhos por meio segundo.
— Fale.
Moreira ajeitou o paletó, tenso.
— Senhor… começamos a rastrear a senhorita Moretti, como ordenado.
Mas… — ele respirou fundo — recebemos informação de que ela retornou para a Itália esta manhã.
Rafael passou a mão pela lateral do rosto. Nenhuma surpresa. Nenhuma reação violenta. Só um silêncio tão gelado que o ar tremeu.
— Traga ela de volta. — ele disse, seco. — Nem que seja nadando.
Moreira engoliu o próprio destino, assentiu e saiu quase tropeçando.
Já no corredor, ele puxou o telefone:
— Aqui é Moreira. — sua voz saiu firme. — Ordem direta do senhor Montenegro.
Tragam Isabella Moretti de volta ao Brasil… inteira ou remendada.
Não me importa como.
A porta do escritório abriu de novo.
Dessa vez, Lucas.
O oposto de Moreira: entrou como se fosse dono da sala, da empresa e do mundo, mesmo sabendo que não era.
— Bom dia, príncipe do caos. — ele comentou, jogando-se na cadeira à frente da mesa de Rafael.
Rafael não respondeu. Continuou lendo, anotando, assinando.
Lucas esperou três segundos.
Três longos segundos.
Depois soltou:
— Vou te falar uma coisa… — ele cruzou os braços. — Eu odeio mulheres, cientistas e que usam óculos de fundo de garrafa.
Rafael congelou a caneta no meio da assinatura.
E, pela primeira vez desde o amanhecer, o canto da boca dele ameaçou subir um milímetro.
Quase um sorriso.
Quase.
— Por quê? — Rafael perguntou, sem olhar para ele. — O que a senhorita Kato fez dessa vez?
Lucas jogou a cabeça pra trás, indignado.
— Vem. Vem ver essa loucura. — ele gesticulou como se contasse um atentado internacional. — Ela disse que se eu continuar seu amigo e te defendendo, ela me risca do caderninho dela.
Rafael ergueu os olhos. Devagar.
Um olhar que dizia “eu realmente quero ouvir onde isso vai parar”.
Lucas suspirou e continuou:
— EU NÃO TENHO CADERNINHO, RAFAEL. Quem tem caderninho é a minha mãe!
Eu tenho contatos telefônicos. CONTATOS.
Mas ela fala como se eu dormisse abraçado num diário rosa com caneta de glitter.
Rafael voltou aos contratos, mas o maxilar dele suavizou.
Sim, ele quase riu.
— Por que ela não quer que você seja meu amigo? — ele perguntou.
Lucas abriu os braços, dramático.
— Porque ela está uma FERA com você! — ele explicou. — Dizendo que você é frio, insensível, calculista, que deixou a cunhada quase morrer e ainda impediu ela de denunciar a Isabella…
Rafael parou de escrever.
Era sutil. Quase invisível. Mas ele parou.
Lucas percebeu.
— …e eu quase soltei que você fez uma mega operação pra salvar a Valentina—
Rafael ergueu o rosto tão rápido que Lucas engoliu o resto da frase.
— Eeeeiiii. — ele levantou as mãos. — Calma. É óbvio que eu não falei.
Eu tenho amor à minha vida.
Um homem precisa de instinto de sobrevivência nesse mundo.
Rafael voltou a olhar para os papéis.
A caneta desceu na folha, mas não com a mesma tranquilidade.
— Certo. — Rafael murmurou.
Lucas sorriu, aproveitando a fresta aberta.
— Ela tá mordida com você, cara. E olha… com razão.
— Isso não é problema dela. — Rafael respondeu.
— É sim. — Lucas rebateu, cruzando as pernas. — Porque quando uma mulher fica chateada com um homem que ela não suporta…
Significa que ela suporta ele mais do que quer admitir.
Rafael ergueu uma sobrancelha.
Lucas completou, satisfeito:
— Valentina não está indiferente. Isso é um fato.
Rafael trincou o maxilar. Assinou outro contrato. Fez de conta que não ouviu.
Lucas riu.
— Idiota…
Clara parou por meio segundo, mas decidiu continuar andando.
Covardia tem pernas rápidas.
A porta se fechou.
Valentina soltou o ar que nem percebeu que estava segurando.
Ela olhou para o envelope na mão.
Elegante. Pesado. Perfumado com aquele cheiro específico da família Montenegro:
dinheiro, poder e pretensão.
Ela abriu.
Letras douradas criavam ondas na textura do papel.
GRANDE BAILE ANUAL MONTENEGRO
Sábado, 21h
Traje de gala obrigatório
“Obrigatório.”
“Gala.”
“Montenegro.”
Um bingo do inferno.
Valentina jogou o envelope na cama como quem j**a lixo no cesto.
— Ah, claro… — ela resmungou. — Porque o que eu mais preciso agora é posar para gente rica e esnobe fingindo que minha vida não é um caos.
Ela se largou de costas na cama, cobrindo o rosto com o braço.
— Nem roupa eu tenho pra isso… e sinceramente? Não me importo. Pode ter baile, pode ter gala, pode ter o Papa fazendo malabarismo… não é problema meu.
Ficou assim por dez segundos.
Quinze.
Vinte.
E então… se levantou.
A vida não esperava ninguém terminar drama.
Ela voltou para a mesa, abriu o notebook e respirou fundo.
As notificações de clientes, os PDFs, os casos, as petições — tudo parecia mais acolhedor do que qualquer salão de gala.
— Trabalhar. — ela murmurou, ajeitando os cabelos. — Isso sim vale a pena. Isso sim eu controlo.
Os dedos dela voltaram a correr pelo teclado.
— Já fui refém dessas paredes tempo demais. — ela disse para si mesma, firme. — Se eu posso ao menos trabalhar em paz… que seja isso que eu faça.

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