A alta veio uma semana depois.
Uma semana de soro, antibióticos, remédios para dor, exames, monitoramento cardíaco… e noites em claro.
Uma semana inteira em que Bianca praticamente dormiu numa poltrona de hospital, com o cabelo preso do mesmo jeito torto do primeiro dia, manicure destruída e humor ainda pior.
Moreira também estava ali naquela manhã.
Postura impecável.
Terno escuro.
Expressão neutra.
Profissionalismo absoluto.
Mas os olhos…
Os olhos mostravam algo que ele não podia dizer:
respeito.
— Senhora Montenegro… — ele disse, abrindo a porta do quarto com gentileza. — O carro está pronto. Assim que quiser, posso acompanhar até a mansão.
Valentina se ajeitou na cadeira, o corpo ainda doído, a respiração curta.
Estava tão magra, tão abatida, tão silenciosa…
Mas havia algo novo nela:
uma sombra de força.
Bianca segurou a bolsa dela e murmurou:
— Vamos embora dessa espelunca. Eu vou arrancar sua alta nem que tenha que ameaçar o hospital, Val.
Valentina soltou um riso cansado.
— Obrigada, Bia.
— Agradece não. — Bianca resmungou. — Agradece depois que eu arrumar seu cabelo, porque você tá parecendo que lutou contra um ciclone.
— O que… de certa forma… — ela levantou as mãos — aconteceu.
Moreira pigarreou, quase sorrindo, mas manteve compostura militar.
— O carro está esperando, senhoritas.
A mansão Montenegro parecia ainda maior depois do hospital.
Valentina desceu devagar do carro, Bianca ao seu lado segurando firme seu braço, como se temesse que o vento a derrubasse.
A porta mal tinha sido empurrada por Moreira quando a voz fria de Vittória desceu a escada como navalha.
— O que significa isso?
Valentina parou no hall, exausta, pálida, apoiando parte do peso em Bianca. O soro ainda marcava seu braço. O corpo tremia de dor.
Mas a primeira coisa que ela recebeu ao voltar para a casa que teoricamente era sua?
Um ataque.
Vittória desceu mais um degrau, rígida, impecável, olhos duros de julgamento.
— Uma mulher casada não some por uma semana inteira. — ela disse, o tom venoso e educado. — Não desaparece sem dar explicações. Não deixa a casa inteira em caos.
Valentina baixou o olhar, envergonhada… machucada.
Bianca não.
Bianca estourou como dinamite.
— A senhora tá falando sério? — ela deu um passo à frente, a voz firme, indignada. — A Valentina saiu de casa viva e voltou quase morta pra esse lugar… e a primeira coisa que a senhora pergunta é “onde você estava”?
Vittória piscou, surpresa com a insolência.
— Eu estou perguntando o óbvio. Ela tem responsabilidades aqui.
— E ela quase morreu cumprindo uma delas: confiar nas pessoas erradas. — Bianca rebateu, sem citar nomes, mas com Isabella entalada na sua garganta. — A senhora pelo menos perguntou como ela está?
— Perguntou se ela precisa de ajuda?
— Perguntou se ela consegue ficar em pé sozinha?
Valentina engoliu um choro, porque era verdade — ninguém da casa tinha perguntado nada.
Clara apareceu atrás de Vittória.
— Olha… eu não sei como essa casa funciona. — Bianca continuou, erguendo o queixo. — Mas eu sei como deveria funcionar.
— Quando a dona da casa volta do hospital, vocês recebem. Não pressionam.
— Vocês oferecem ajuda. Não julgamento.
Vittória cerrou os dentes.
— Dona da casa? — ela repetiu, ofendida. — Não exagere no papel dessa menina, minha cara. Ela é esposa por contrato, não dona de nada—
Bianca ergueu a mão, cortando.
— A senhora me desculpa, mas… com licença. — ela apontou para Valentina. — A dona da casa está subindo para descansar.
— Preparem o café da manhã. Frutas frescas. Leite, pães doce.
Vittória ficou vermelha.
Clara arregalou os olhos.
Mas antes que ela pudesse retrucar…
O ar mudou.
A temperatura caiu.
Os passos pesados ecoaram no corredor.
E Rafael Montenegro apareceu.
De terno escuro.
Olhar cortante.
Postura indiscutível de dono do mundo.
Ele ouviu a última frase de Bianca.
E sem hesitar, ordenou:
— Façam o que ela mandou.
Silêncio absoluto.
Vittória tentou falar.
Rafael apenas virou o rosto devagar em direção a ela.
A matriarca engoliu as palavras.
Clara baixou a cabeça.
Bianca sorriu por dentro.
Valentina… respirou.
Rafael não olhou diretamente para Valentina.
— Você. — Rafael disse. — A partir de agora, sua prioridade absoluta é atender a senhora Montenegro. Leve comida para o quarto dela. Agora.
Clara empalideceu.
— S-sim, senhor.
E quase tropeçou de tão rápido que saiu.
Rafael observou por meio segundo…
E depois inclinou minimamente o rosto para Moreira.
— Escritório. — ele ordenou.
— Sim, senhor. — Moreira respondeu, sumindo no corredor.
Rafael já estava indo atrás quando—
— Rafael. — Vittória chamou, a voz embargada. — O que está acontecendo? Por que está falando assim comigo?
Ele parou.
Devagar.
Com um cansaço cansado, porém perigoso, ele virou o rosto.
— Esse final de semana tem o baile de gala da empresa. — ele disse. — Não esqueceu, esqueceu?
Vittória piscou, confusa.
— Claro que não. Eu sempre organizei esse evento. Sempre.
Rafael deu dois passos na direção dela.
— Não mais.
Silêncio.
A palavra caiu entre eles como um machado.
— Como… como assim? — a mãe dele sussurrou, tentando manter a pose.
Rafael inclinou a cabeça, observando-a como quem avalia um inimigo.
— Estou te tirando de tudo isso. — ele disse, seco. — Coordenação, organização, presença estratégica, discurso. Tudo. Não é mais sua responsabilidade.
Vittória arregalou os olhos.
— Rafael! Você não pode—
— Posso. — ele cortou. — E já fiz.
Ele ajeitou o punho da camisa, como alguém que apruma a própria coroa.
— Talvez assim, mãe… a senhora encontre tempo para pensar em outras coisas. — ele disse, deixando a frase cuspida com educação venenosa. — Coisas mais importantes do que controlar quem vive dentro desta casa.
E sem esperar resposta, ele simplesmente passou por ela.
O perfume dele — aquele perfume frio, amadeirado, autoritário — ficou no ar por segundos.
A porta do corredor se fechou atrás dele.
E então, finalmente…
Vittória perdeu a postura.
Os dedos tremeram. A respiração falhou.
O orgulho rachou.
— Maldita. — ela sussurrou entre dentes, com ódio puro queimando nos olhos. — Maldita Valentina. Maldita… ela acabou com tudo.

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