O quarto ainda estava em silêncio quando as primeiras luzes do amanhecer começaram a atravessar as cortinas, e Valentina abriu os olhos. Por um instante, ficou ali, imóvel, sentindo o peso leve do descanso no corpo, como se ainda estivesse entre o sonho e a realidade. Mas foi o movimento ao lado que a trouxe de volta.
Rafael já estava de pé, vestindo a camisa com a mesma calma de sempre, os gestos precisos, naturais, como se cada detalhe fosse parte de um ritual que ele dominava perfeitamente. Valentina apoiou a cabeça no travesseiro e o observou sem pressa, não apenas pelo que ele fazia, mas pela forma como fazia — sem esforço, sem pressa, sem necessidade de provar nada.
— Vai continuar me olhando assim? — ele perguntou, ajustando o relógio no pulso.
Ela não respondeu de imediato. Deixou o silêncio passar por um segundo antes de falar, a voz ainda baixa, carregando o resquício do sono.
— Depende… você vai me dizer o que está planejando?
Rafael ergueu o olhar, encontrando o dela com facilidade.
— Troca de roupa.
Valentina arqueou a sobrancelha, um leve sorriso surgindo.
— Isso foi um pedido ou uma ordem?
Ele se aproximou, parando diante dela, perto o suficiente para que a presença dele ocupasse todo o espaço entre os dois.
— Um convite.
Houve uma pausa breve, quase imperceptível, mas carregada de intenção.
— Quero te mostrar a cidade.
Valentina sustentou o olhar por um instante, avaliando mais o tom do que as palavras, e então assentiu com um pequeno sorriso.
— Cinco minutos.
— Três.
Ela estreitou os olhos, divertida.
— Você está abusado hoje.
— Hoje? — ele devolveu, e o riso que escapou dela foi leve, espontâneo.
Minutos depois, ela saiu do closet. Casaco elegante, cabelo solto, maquiagem leve — o suficiente para realçar, nunca para esconder. Rafael não disfarçou ao observá-la, o olhar percorrendo cada detalhe com calma.
— Você faz isso de propósito — ele murmurou.
— Faço o quê? — ela perguntou, pegando a bolsa.
— Me dar trabalho.
Ela passou por ele sem se abalar.
— Problema seu.
Rafael abriu a porta, acompanhando-a com um leve sorriso.
— Com certeza é.
O ar frio de Genebra os envolveu assim que deixaram o hotel, elegante, silencioso, como se a cidade tivesse um ritmo próprio. Valentina respirou fundo, soltando o ar lentamente.
— Isso aqui é outro nível.
Rafael se aproximou, ajustando o cachecol dela com naturalidade. Os dedos dele roçaram levemente a pele do pescoço dela, e ela ficou em silêncio por um segundo, sentindo mais o gesto do que o frio.
— Agora sim — ele disse.
Valentina ergueu o olhar.
— Você anda muito cuidadoso.
— Eu sempre fui.
Ela inclinou a cabeça, analisando.
— Não assim.
Ele não respondeu. Apenas entrelaçou os dedos nos dela e começou a caminhar.
O lago Léman se estendia diante deles como um espelho escuro, refletindo as luzes da cidade em tons dourados que tremulavam com o movimento da água. Ao fundo, o jato do Jet d’Eau cortava o céu com imponência, iluminado contra a noite.
Valentina diminuiu o passo, absorvendo a vista.
— Isso é bonito.
— Bom ou ruim? — Rafael perguntou.
— Bom demais.
Ele assentiu, tranquilo.
— Eu imaginei que você ia gostar.
Ela virou o rosto para ele.
Ela riu baixo.
— Você anda se achando muito bom nisso.
— E estou errado?
Valentina inclinou a cabeça, analisando.
— Ainda estou avaliando.
O tempo passou sem pressa, entre conversas leves e olhares demorados, como se o mundo lá fora não tivesse importância alguma. Quando saíram novamente, a cidade parecia ainda mais silenciosa, mais íntima, e Valentina entrelaçou o braço no dele sem pensar.
Rafael percebeu, mas não comentou.
— O que foi? — ela perguntou.
— Nada.
Uma pausa curta.
— Só estou aproveitando.
Ela sorriu de lado.
— Então aproveita direito.
O caminho de volta ao hotel foi lento de propósito, como se nenhum dos dois tivesse pressa de encerrar aquela noite. E, quando finalmente entraram no quarto, Rafael fechou a porta antes de puxá-la de volta.
O beijo veio mais calmo dessa vez, mais profundo, carregado de algo que não precisava mais de urgência para existir.
Valentina deslizou as mãos pela camisa dele.
— Achei que já tínhamos resolvido isso.
Rafael aproximou o rosto do dela.
— Nunca está totalmente resolvido.
Ela sorriu.
E não se afastou.
Naquela noite, Genebra continuava impecável do lado de fora, fria, distante, mas dentro daquele quarto o tempo parecia obedecer apenas a eles. Não havia pressa, não havia cobrança, não havia nada além do presente — inteiro, suficiente, e impossível de ignorar.

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