O escritório de Valentina estava diferente naquele fim de tarde. Duas xícaras de café ocupavam a mesa, ao lado de um prato com pequenos lanches que claramente não faziam parte da rotina impecável dela.
E Bianca…
falava.
Como sempre.
— Eu ainda não acredito que você simplesmente aceitou aquele contrato e agora está aí… vivendo um romance digno de filme.
Valentina sorriu de leve, apoiando o cotovelo na mesa.
— Não foi exatamente “simplesmente”.
— Ah, claro — Bianca revirou os olhos, pegando um doce. — Foi super natural casar com o Rafael Montenegro. Coisa básica do dia a dia.
Valentina riu.
Baixo.
Mas riu.
— Você exagera.
— Eu? — Bianca apontou para si mesma, dramática. — Amor, você casou com o homem que metade do país teme e a outra metade quer ser.
Valentina balançou a cabeça, pegando a xícara.
— Ele não é assim.
Bianca estreitou os olhos.
— Olha só… — ela se inclinou na cadeira — já estamos defendendo o marido.
Valentina soltou um pequeno suspiro, mas o sorriso permaneceu.
— Ele… está diferente.
Bianca arqueou uma sobrancelha.
— Diferente como?
Valentina hesitou por um segundo.
Como se organizasse as palavras.
— Mais… presente.
Uma pausa.
— Mais leve.
Bianca ficou em silêncio por um instante, observando.
Depois sorriu.
— Ele está apaixonado.
Valentina não respondeu de imediato.
Mas o olhar…
entregou.
Bianca abriu um sorriso maior.
— Meu Deus.
— Bianca…
— Você está apaixonada.
Valentina revirou os olhos.
— Eu sempre estive.
— Não desse jeito.
Silêncio.
Curto.
Mas suficiente.
Valentina desviou o olhar por um segundo.
— Talvez.
Bianca cruzou os braços, satisfeita.
— Eu sabia.
Valentina olhou de volta para ela.
— E você?
Bianca travou.
Por meio segundo.
O suficiente.
Valentina sorriu.
Devagar.
— Ah… entendi.
— Não começa.
— Você está escondendo coisa.
— Não estou.
— Bianca…
Valentina se inclinou levemente para frente.
— Lucas.
O nome caiu no ar.
Bianca ficou séria.
O sorriso desapareceu.
— O que tem ele?
Valentina ergueu uma sobrancelha.
— Você me diz.
Bianca desviou o olhar, respirando fundo.
— O Lucas é…
Ela parou.
Escolhendo as palavras.
— Complicado.
Valentina soltou uma risada baixa.
— Isso é uma forma bonita de dizer mulherengo.
Bianca não negou.
— Exatamente.
Silêncio.
— Para ter alguma coisa séria comigo… — Bianca continuou, firme — ele vai ter que provar muito ainda.
Valentina apoiou as costas na cadeira.
— Desde que eu conheço o Lucas… ele mudou.
Bianca olhou para ela.
— Você acha?
— Eu sei.
Uma pausa.
— Você que ainda não quis ver.
Bianca ficou em silêncio.
Pensativa.
Mas antes que pudesse responder…
o celular de Valentina vibrou sobre a mesa.
O som foi discreto.
Mas suficiente.
Valentina olhou para a tela.
E o sorriso desapareceu.
Na mesma hora.
Bianca percebeu.
O clima mudou.
Instantaneamente.
— O que foi?
Valentina não respondeu.
Atendeu.
— Senhor Andrade.
— Senhora.
A voz do outro lado era direta.
Sem rodeios.
— Estou enviando as informações que pediu sobre a senhora Vittória Montenegro.
Valentina ficou imóvel por um segundo.
— Certo.
— Já deve estar chegando.
— Obrigada.
Ela desligou.
O silêncio caiu na sala.
Bianca não falou nada.
Só observava.
O celular vibrou novamente.
Mensagem.
Valentina abriu.
Os olhos correram pelas informações.
Endereço.
Relatório.
Confirmação.
Ela soltou o ar devagar.
— Ela está lá.
Bianca franziu a testa.
— Lá onde?
Valentina levantou o olhar.
— No sanatório.
Silêncio.
Pesado.
Valentina bloqueou o celular.
Apoiou sobre a mesa.
E olhou diretamente para Bianca.
Minutos depois, Lurdes apareceu.
— A senhora chamou?
Valentina entregou a chave do carro.
— Você vai até a casa da vovó Kato.
Lurdes assentiu.
— Ela tem um envelope que eu preciso. É urgente.
Uma pausa.
— E eu não confio em mais ninguém para isso.
Lurdes sorriu.
— Sim, senhora Montenegro.
Ela pegou a chave e saiu sem questionar.
Valentina então pegou o celular novamente.
Ligou.
— Arthur.
— Senhora.
— Vá com o carro de apoio. Eu quero ir dirigindo hoje. Preciso conversar com Bianca.
Silêncio curto.
— Sim, senhora.
Ele não estranhou.
Não era a primeira vez.
Valentina desligou.
Bianca cruzou os braços.
— Você é assustadora.
Valentina sorriu de lado.
— Eficiente.
Poucos minutos depois…
um carro por aplicativo parou em frente ao prédio.
As duas entraram.
O motorista seguiu.
Bianca olhou para Valentina.
— Que emocionante…
Um sorriso surgiu.
— Parecemos aquelas duas espiãs.
Valentina riu.
— Fica tranquila, agente Bianca.
O carro seguiu pela cidade.
Luzes passando pelas janelas.
O silêncio voltou.
Mas não era leve.
Era tenso.
Pensado.
Até que…
o carro parou.
Sanatório.
Valentina olhou para Bianca.
— Vamos fazer assim.
Bianca prestou atenção.
— Eu sou só sua amiga.
— Ok…
— Você vai dizer que está pensando em colocar sua avó aqui. Alzheimer.
Bianca piscou.
Abriu a boca.
Fechou.
— Valentina…
— Confia em mim.
Silêncio.
Bianca respirou fundo.
— Tá bom.
As duas desceram.
A fachada do lugar era limpa.
As portas se abriram.
E, no instante em que cruzaram a entrada…
Valentina soube.
Aquilo não era só um lugar de descanso.
Era onde verdades eram escondidas.

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