O restaurante estava movimentado naquele horário.
Conversas suaves se misturavam ao som de talheres e taças de cristal. O aroma de café recém-passado e pratos elaborados preenchia o ar elegante do lugar.
Valentina caminhava em direção à saída ao lado de Lurdes, olhando rapidamente algumas mensagens no celular.
— Senhora Montenegro, quer que eu reagende a reunião com o senhor Duarte para amanhã? — perguntou Lurdes com a agenda digital aberta.
Valentina suspirou.
— Sim. E coloque no primeiro horário. Se ele cancelar de novo, eu mesma cancelo o contrato.
Ela guardou o celular na bolsa enquanto caminhava.
E foi exatamente nesse momento que aconteceu.
Ela literalmente esbarrou em alguém.
O impacto não foi forte, mas suficiente para fazê-la parar.
— Desculpa, eu—
Valentina levantou o olhar.
E sorriu imediatamente.
— Enzo?
Ele abriu um sorriso largo, quase surpreso.
— Prima… que prazer em vê-la.
Valentina soltou um pequeno riso.
— Enzo, desculpa. Eu estava distraída.
Ele balançou a cabeça.
— Não se preocupe.
Então virou-se educadamente para Lurdes.
— Boa tarde.
Lurdes assentiu com um sorriso profissional.
— Boa tarde, senhor.
Enzo voltou a olhar para Valentina.
— O que a prima faz por aqui?
Ela ajeitou a bolsa no ombro.
— Vim encontrar um cliente.
Fez uma pausa.
— Que cancelou em cima da hora.
Enzo ergueu as sobrancelhas.
— Então eu estou no lucro.
Valentina inclinou a cabeça.
— Como assim?
Ele abriu os braços.
— Vim almoçar.
Depois sorriu.
— E agora posso convidar vocês duas.
Valentina abriu a boca para responder.
Mas Enzo foi mais rápido.
— Prima… sua secretária também.
Ele olhou para Lurdes com um sorriso leve.
— Afinal já está quase meio-dia.
Fez uma pausa dramática.
— E assim você evita um processo trabalhista por não alimentar sua funcionária.
O tom dele era tão leve, tão brincalhão, que Valentina soltou uma risada verdadeira.
Lurdes ficou levemente sem graça.
Valentina olhou para ela.
— Lu… desculpa.
Ela passou a mão pelos cabelos.
— Estou tão cheia de trabalho que esqueci completamente que já estamos em um restaurante.
Lurdes sorriu.
— Não tem problema nenhum, senhora Montenegro.
Enzo bateu as mãos suavemente.
— Então já que todos concordamos…
Ele apontou para dentro do restaurante.
— Podemos almoçar?
Valentina trocou um olhar rápido com Lurdes.
Depois assentiu.
— Sim.
O maître os conduziu até uma mesa reservada próxima à janela.
A vista da cidade era ampla e elegante.
Eles se acomodaram.
Lurdes discretamente sentou-se um pouco mais afastada, respeitando o espaço da conversa.
O garçom trouxe os cardápios.
Enzo pediu vinho.
Valentina preferiu água com gás.
Alguns minutos depois, os pedidos estavam feitos.
E a conversa voltou naturalmente para o assunto que os havia aproximado.
Valentina abriu a pasta que ele havia levado.
— Sobre o seu caso, Enzo…
Ela passou os olhos pelos documentos novamente.
— Eu investiguei bastante.
Ele a observava com atenção.
— Fui atrás de informações sobre esse investidor.
Ela apoiou os braços na mesa.
— E descobri algo interessante.
Enzo franziu levemente a testa.
— O quê?
— Esse homem vem fazendo isso com outros empresários.
Ela deslizou alguns papéis para ele.
— Contratos abusivos. Cláusulas manipuladas.
Fez uma pausa.
— Se minhas fontes estiverem corretas… isso é estelionato.
Enzo soltou o ar lentamente.
Como se estivesse segurando a respiração desde que a conversa começou.
— Então…
Valentina continuou:
— Eu posso reverter seu caso.
Ele a olhou.
— E transformar isso em um processo judicial.
O alívio no rosto dele parecia genuíno.
Ele recostou na cadeira.
— Prima…
Passou a mão pelo rosto.
— Eu sabia que vir até você era a decisão certa.
Valentina fechou a pasta.
— Ainda precisamos reunir provas.
— Claro.
Ele assentiu rapidamente.
— Mas você já salvou metade da minha vida.
Ela sorriu de leve.
— Não exagera.
Ele parecia desconfortável.
— Eu achei que você soubesse.
Ela ficou completamente imóvel.
— Soube o quê?
Ele passou a mão pelo cabelo.
— Eu pensei que Rafael tivesse contado.
O silêncio entre eles ficou pesado.
— Contado o quê? A sua tia não está na Suíça?
Valentina franziu a testa.
— Suíça?
Ele deu uma pequena risada nervosa.
— Quer dizer…
Fez uma pausa.
— Se você chama o sanatório municipal de Suíça.
Valentina piscou.
— Sanatório?
Ele levantou as mãos rapidamente.
— Prima, eu não devia ter dito isso.
Ela estava pálida agora.
— Enzo…
Ele se inclinou para frente.
— Por favor.
— Eu…
Ele suspirou.
— Eu achei que Rafael tivesse te contado.
Valentina não respondeu.
Ele continuou, quase implorando:
— Não conta para ele que fui eu que falei isso.
Ela continuava olhando para ele.
— Enzo…
Ele abaixou a voz.
— Você sabe como ele é.
— Se ele descobrir que fui eu…
Ele passou a mão no rosto.
— Por tudo que eu já fiz por você…
Ela respirou fundo.
Depois assentiu lentamente.
— Eu não vou falar nada.
O alívio dele foi imediato.
— Obrigado.
Valentina se levantou.
— Obrigada pelo almoço.
Pegou a bolsa.
— Eu analiso o restante do seu caso e te ligo.
Ele assentiu.
— Claro.
Ela caminhou em direção à saída sem olhar para trás.
Do lado de fora, o carro já estava esperando.
Valentina entrou no banco traseiro.
A cidade passava pela janela.
Mas sua mente estava em outro lugar.

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