Rafael permaneceu ajoelhado, a mão ainda apoiada na lápide, o olhar fixo no nome falso como se a mente se recusasse a aceitar que não havia mais busca, nem estrada, nem relatório, nem esperança. Só fim.
Quando finalmente falou, a voz saiu tão baixa que o próprio vento quase levou.
— Me perdoa.
Silêncio.
Ele fechou os olhos por um segundo.
A mandíbula travada.
O peito duro demais para chorar, pesado demais para respirar direito.
— Sei que é muito tarde pra tudo isso… — murmurou. — E se você estivesse viva, talvez nunca me perdoasse…
A mão livre dele tocou a terra.
Os dedos apertaram o chão como se quisessem segurar alguma coisa que já tinha passado há tempo demais.
— Mas me perdoa.
O silêncio respondeu.
Rafael abaixou a cabeça.
A voz seguinte saiu mais rouca.
Mais baixa.
Mais honesta.
— Eu nunca deveria ter te levado até a minha família.
O vento passou forte entre os túmulos.
Ele continuou, sem tirar a mão da lápide:
— Eu sabia que podia acontecer. Sabia. Mas entre saber… e ter certeza…
A frase morreu por um instante.
Ele respirou fundo.
Tentou de novo.
— Eu arrisquei.
A garganta dele se moveu.
A voz ficou ainda mais baixa.
— Você… e o bebê.
Silêncio.
Longo.
Denso.
O tipo de silêncio que não consola, só deixa a dor respirar.
Rafael continuou ajoelhado.
O olhar perdido na pedra gasta.
— Sara… eu te procurei tanto.
A voz já não tinha controle.
Não era desespero.
Era cansaço.
Um cansaço antigo demais.
— Em tantos lugares. Em tantos anos.
Ele soltou um sopro curto, quase sem humor.
— Aqui é frio.
O canto da boca dele subiu por um segundo mínimo.
Doloroso.
— E você detestava frio, né?
A memória veio como faca e carinho ao mesmo tempo.
O jeito que ela reclamava do inverno.
O modo como enfiava as mãos nas mangas dele para esquentar os dedos.
Aquele riso fácil que ele passou anos tentando não lembrar.
Rafael fechou os olhos.
— Passei dez anos planejando minha vingança contra quem te machucou.
A cabeça dele baixou mais um pouco.
— Dez longos anos.
Ele soltou um ar amargo.
— Eu sei o que você diria. Que vingança envenena a alma.
Um silêncio breve.
Depois:
— Mas eu cheguei num ponto em que acho que já não tenho mais alma nenhuma.
O vento passou outra vez.
E, por um instante absurdo, ele sentiu um perfume conhecido.
Não de Sara.
De Valentina.
Rafael respirou fundo.
O cheiro dela parecia deslocado naquele lugar, e ainda assim fazia sentido.
Luz no meio da terra fria.
Ele abriu os olhos devagar.
— Encontrei uma pessoa parecida com você.
O sorriso que surgiu foi pequeno. Quase quebrado.
— Ela irradia luz por onde passa.
A expressão dele murchou logo depois.
Porque toda ternura em Rafael Montenegro sempre vinha acompanhada de culpa.
— Pena que minha vida é feita de escuridão… — murmurou. — E essa escuridão sempre engole a luz.
A mão dele apertou a borda da lápide.
— Minha mãe teve o que mereceu. Meu pai também. Todos que fizeram mal a você… e a ela… estão pagando.
Os olhos dele se fecharam por um instante.
— Ainda tenho dois para terminar.
Ele soltou um sopro curto.
— Quem sabe assim eu consiga ver um pouco de luz também.
O vento gelado atravessou o cemitério.
— Espero que ela me perdoe… assim como estou aqui te pedindo perdão.
O silêncio tornou a cair sobre ele.
Depois de um longo tempo, Rafael apoiou as mãos nos joelhos e se levantou devagar.
As pernas demoraram um segundo a obedecer.
Ele limpou a terra dos joelhos com movimentos lentos, ainda olhando para a lápide.
— Sara…
A palavra saiu como prece.
Ou como pedido de clemência.
— Obrigado pela forma torta de me ajudar aí de cima… se existir algo assim.
O canto da boca dele subiu de leve.
— Espero que continue olhando pra mim. Não com raiva… mas como se tivesse mesmo me perdoado.
Nesse momento, o vento passou mais forte.
Frio.
Mas estranho.
Menos cruel do que antes.
Rafael fechou os olhos por um segundo.
Depois se virou.
Começou a caminhar entre os túmulos antigos.
Saindo da parte mais escura do cemitério, deixando para trás a pedra fria, o nome falso, os anos de busca e o peso que havia carregado sozinho por tanto tempo.
Quando ergueu os olhos, viu Valentina.
Ela estava sentada no banco perto da entrada, as mãos unidas sobre o colo, o rosto virado para o lado.
A luz do fim da tarde caía apenas sobre ela.
Dourada.
Suave.
Como se o resto daquele lugar estivesse mergulhado em sombra só para que ela brilhasse sozinha.
Rafael parou por um segundo.
Porque a imagem era forte demais para passar despercebida.
Por muitos anos ele viveu na escuridão da própria vida.
E agora, saindo daquele cemitério, era como se estivesse caminhando diretamente para a luz.
Ele continuou em frente.
Mais lento.
Mais leve.
Com o coração ainda ferido…
mas menos amargo.
E, enquanto se aproximava dela, Rafael Montenegro soube — pela primeira vez em muitos anos — que o passado não tinha desaparecido.
Mas já não o prendia do mesmo jeito.
Porque ali, sentada na luz, estava a única coisa capaz de fazê-lo seguir em frente.
Valentina.

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