Valentina abriu os olhos devagar, sem saber exatamente o que a despertara. O quarto ainda estava em penumbra, a luz da manhã entrando tímida pelas cortinas pesadas.
O braço ao redor da cintura dela apertou levemente.
Instintivo.
Rafael.
Ela não se mexeu de imediato. Ficou ali. Sentindo.
O calor dele nas costas. A respiração firme contra sua nuca. A mão espalhada sobre sua barriga como se aquilo fosse… natural.
Como se ela sempre tivesse dormido ali.
Valentina inspirou fundo.
Havia algo diferente nos últimos dias. Não era intenso. Não era dramático. Era sutil. Pequeno.
Mas constante.
Ela virou o rosto devagar, encarando o braço dele.
Ele estava acordado.
— Você sempre acorda antes de mim? — ela murmurou.
— Sempre. — respondeu, a voz rouca, baixa.
— E fica aí fingindo que dorme?
— Não estou fingindo.
Um canto da boca dela se curvou.
— Está me vigiando?
— Estou confirmando que você está aqui.
A resposta não veio com ironia. Nem com brincadeira.
Veio simples.
Valentina ficou em silêncio.
Ele deslizou os dedos lentamente pela lateral da cintura dela. Não era provocação. Era hábito. Era toque que reconhece.
— Ainda dói? — ele perguntou.
Ela sabia que ele falava do que aconteceu na festa. Não do corpo. Do susto.
— Não. — respondeu. — Está ficando distante.
Ele aproximou o rosto, os lábios roçando de leve a pele abaixo da orelha dela.
— Bom.
Valentina virou-se de frente para ele.
O rosto de Rafael estava mais relaxado do que o habitual. Sem aquela tensão permanente que ele carregava nos olhos quando estava na empresa.
Ela passou os dedos pelo maxilar dele.
— Você vai se atrasar.
— Posso me atrasar.
Ela arqueou a sobrancelha.
— O todo poderoso Rafael Montenegro pode se atrasar? — ela provocou.
Ele segurou a mão dela antes que ela se afastasse.
— Sou presidente agora. Posso fazer o que quiser.
Ela congelou por um segundo.
— Você… se tornou presidente?
Ele manteve o olhar firme.
— Sim. Com aval de todo o conselho.
Valentina piscou devagar.
Presidente.
Casa vazia.
Pais fora da mansão.
Decisões rápidas demais.
As palavras de Bianca ecoaram na mente dela:
Ele fez por você.
— Isso é grande… — ela murmurou.
— Foi necessário. — ele respondeu.
Mas o braço dele apertou a cintura dela com mais firmeza.
— Então… — ela sussurrou — o todo poderoso pode mesmo se atrasar?
O canto da boca dele se curvou.
— Hoje, posso.
Ele a puxou um pouco mais para perto.
Não houve urgência. Não houve pressa.
Houve apenas o corpo dele encaixando o dela, como se aquela posição fosse onde ela deveria estar.
O beijo veio lento. Demorado. Sem fome. Sem disputa.
Só presença.
Quando se levantaram, não houve distância brusca.
Ele foi para o banheiro primeiro. Ela o seguiu minutos depois.
Enquanto ele abotoava a camisa branca diante do espelho, Valentina parou atrás dele.
Observou.
Rafael Montenegro pronto para o mundo parecia sempre inatingível. Mas ali… Com os cabelos ainda levemente úmidos… Com o olhar suavizado… Ele parecia apenas um homem.
Ela pegou a gravata sobre a bancada.
— Vem aqui.
Ele virou-se.
Valentina passou a gravata pelo colarinho dele com movimentos precisos. Mãos firmes. Calmas.
— Você faz isso como se já tivesse feito a vida inteira. — ele comentou.
— Eu estagiei em escritórios com homens que se achavam muito importantes. — ela respondeu. — Aprendi a lidar com erros em vestimentas.
Ele segurou o pulso dela antes que ela terminasse o nó.
— Eu não sou como eles.
Ela ergueu o olhar.
— Eu sei.
O nó ficou perfeito.
Ela alisou o tecido sobre o peito dele. O gesto demorou um segundo a mais do que precisava.
Rafael segurou o queixo dela levemente.
— Hoje eu vou tentar sair mais cedo.
Ela piscou.
— Tudo bem.
Pequenas promessas. Nada grandioso.
Desceram para o café.
A mesa estava posta apenas para dois.
Sem lugares vazios. Sem presença indesejada.
Rafael servia o café quando Valentina pegou a torrada, distraída.
— Vi no noticiário ontem… — comentou, como quem fala de qualquer coisa. — Disseram que hoje vai chover forte em São Paulo.
Ele ergueu os olhos para ela.
— Vai?
— Vai. — ela passou manteiga com calma. — E você sabe como fica aquele acesso da Marginal… um caos.
Ele observava o jeito natural dela falar.
Sem cobrança.
Sem drama.
Só cuidado.
— Eu vou tomar cuidado. — respondeu.
Ela assentiu, satisfeita.
— Faça isso.
Silêncio curto.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— E você? Vai fazer o quê hoje?
Valentina pegou a xícara.
— Vou retomar minha consultoria online. — disse. — Desde o… episódio aqui em São Paulo eu deixei muita coisa acumulada.
Ela fez um gesto vago com a mão.
— Tenho processos para revisar, contratos para organizar… minha vida não pode parar porque decidiram tentar me destruir.
Ele a observou por alguns segundos.


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