O quarto cheirava a antisséptico e silêncio imposto.
Vittória Montenegro estava sentada na cama estreita, as mãos apoiadas sobre o colo, o olhar fixo demais na parede clara à sua frente. Ali, tudo era controle alheio. Horários. Remédios. Rotinas. Nenhuma decisão passava por ela — e isso era inaceitável.
O aviso ainda ecoava na cabeça:
Uso de celulares é estritamente proibido.
Vittória sorriu por dentro.
Proibição só existia para quem era pobre. Ricos sempre fazem o que quer.
Quando a enfermeira entrou para checar os sinais vitais, Vittória não mudou a expressão. Voz baixa. Controlada. Ensaiada havia dias.
— Você tem filhos, não tem? — perguntou, casual, como quem comenta o clima.
A enfermeira hesitou. Assentiu.
— Turnos longos… salário apertado… — Vittória continuou, como quem não queria nada. — Imagino como deve ser difícil.
O olhar da mulher baixou um centímetro. O suficiente.
— Você sabe quem eu sou? Sabe de onde venho? Então sabe que posso facilitar sua vida.
Minutos depois, quando a porta se fechou novamente, o celular estava ali. Pequeno. Preto. Tremendo na mão de Vittória como se fosse uma arma recém-destravada.
Ela digitou de memória.
Márcia.
A ligação foi atendida no segundo toque.
— Finalmente. — a voz de Vittória saiu baixa, dura, sem preâmbulos. — Fale.
Do outro lado, Márcia não fingiu calma.
— Ela está com tudo nas mãos. — disse. — Tudo. Fornecedores, cardápio, protocolo, imprensa. Rafael deu carta branca.
Houve um segundo de silêncio.
Depois, Vittória respirou fundo.
— Repita. — ordenou.
— Rafael autorizou Valentina a decidir absolutamente tudo sobre o evento. — Márcia continuou. — Sem interferência. Sem validação intermediária. Eu tentei redirecionar, sugerir continuidade… ela cortou.
O maxilar de Vittória travou.
— Aquela garota não entende o que está tocando. — murmurou. — Ela não entende a família que está enfrentando.
Vittória fechou os olhos por um instante. Não de fraqueza. De cálculo.
— E Rafael? — perguntou. — Ele sabe o que está permitindo?
— Sabe senhora. — Márcia confirmou. — O senhor Montenegro e seu assistente não dão brechas para minha chegada, tudo está no controle dela.
Aquilo doeu mais do que Vittória admitiria.
— Então ele escolheu. — disse, fria. — Não só uma mulher. Um lado.
Márcia respirou fundo.
— Senhora, sou leal a sua família e a senhora principalmente, posso afirmar com clareza que se ela se destacar para o mundo como a esposa perfeita. — Márcia parou por alguns segundos. Depois retornou a falar.— Não terá como desfazer o casamento.
Vittória apertou o celular com força.
— Essa vadia desgraçada é esperta. — sibilou.
— Eu ainda posso interferir. — Márcia disse. — Criar atrasos. Ajustes técnicos. Pequenas falhas que não pareçam sabotagem.
Vittória abriu os olhos.
— Não. — disse. — Ainda não.
Márcia ficou em silêncio.
— Deixe-a acreditar que venceu. — Vittória continuou. — Quanto mais alto alguém sobe sem perceber o chão… maior é o impacto.
A ligação foi encerrada sem despedida.
Vittória ficou alguns segundos olhando para o aparelho, como se pudesse atravessá-lo com o olhar.
— Rafael… — murmurou. — Você sempre foi tão previsível.
Mas agora…
agora ele estava fora do script.
Do outro lado da cidade, o clima era outro.
No escritório envidraçado da Montenegro Corp, Rafael estava em pé diante da mesa, mangas da camisa dobradas, expressão focada. Moreira ao lado, tablet aberto, relatórios atualizados em tempo real.
— A senhora confirmou o Rosewood, ajustou o cronograma de transmissão e pediu revisão de segurança internacional. — informou. — Tudo dentro do prazo.
Rafael assentiu.
— Alguma interferência externa? — perguntou.
— O senhor sabe da lealdade da senhora Márcia a senhora Vittória— Moreira respondeu.
Um canto do sorriso de Rafael se moveu.
— Valentina terá que aprender a trabalhar contra Vittória.
— Se, tudo der certo, a senhora Valentina, será vista pelo mundo como a esposa do CEO Rafael Montenegro. — Moreira corrigiu.
Rafael concordou em silêncio.
— Sim, e não poderá haver mais nenhuma outra a não ser ela. — disse. — Continue monitorado. Qualquer menção ao nome da minha mãe… me informe.
— Já estou fazendo. — respondeu Moreira.
Rafael caminhou até a janela, observando a cidade em movimento.
Não era apenas um evento.
Era um marco.
E ele sabia exatamente quem estava colocando ali — não por fragilidade, mas por competência.
No hotel, Valentina caminhava pelo salão principal com o celular na mão, falando baixo com um fornecedor internacional enquanto observava ajustes de iluminação.
— Não, não quero brilho excessivo. — disse. — Quero presença. Há diferença.
Desligou e respirou fundo.
Sentia o peso. Claro que sentia.
Mas não recuou.
Pegou a pasta, ajustou o braço e seguiu adiante.
Valentina saiu do hotel quando o céu de São Paulo começava a escurecer, aquele cinza carregado que nunca prometia chuva, mas sempre trazia peso. Ela entrou no carro com a pasta apertada contra o corpo, o celular já na mão.
Discou antes de pensar demais.
— Bi. — disse assim que a chamada foi atendida. — Eu preciso da sua ajuda.
Do outro lado, Bianca suspirou alto demais.
— Graças a Deus. — respondeu. — Porque se você não tivesse ligado agora, eu ia ligar pra você chorando ou presa por desacato à autoridade… no caso, minha avó.
Valentina sorriu, cansada.
— Ela tá aí ainda?
— Tá. — Bianca respondeu. — Sentada, tomando chá, me olhando como se eu fosse uma decepção internacional porque não quero aceitar as investidas do Lucas.
Valentina riu de verdade pela primeira vez naquele dia.
— Ótimo. — disse. — Então faz um favor pra humanidade e não discute com ela. Eu tô indo pra sua casa. Preciso de você… e dela também.



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