O sol começava a subir firme no céu, dourando o campo e lançando reflexos prateados sobre o lago ao longe. O vento da manhã soprava fresco, levantando o cheiro da grama recém-cortada e o som dos cascos dos cavalos ritmava a conversa dos quatro homens que cavalgavam lado a lado: Taylor, James, Gabriel e Maurício.
Era um daqueles dias em que a fazenda parecia respirar em paz, sem correria, sem compromissos. Só o som da natureza, o tilintar dos arreios e o ocasional resmungo dos cavalos que mastigavam o ar como se tivessem o dia todo.
Taylor vinha à frente, montado em Diablo, seu cavalo negro de temperamento forte, que espirrava poeira a cada passo mais impetuoso. Ao lado, James cavalgava tranquilo, com aquela postura de patriarca acostumado à liderança, com as rédeas firmes nas mãos e o olhar calmo, observador. Atrás deles vinham Gabriel, o mais espirituoso do grupo, e Maurício que, naquele momento, parecia tudo, menos relaxado.
Taylor notou logo de cara: o cunhado estava inquieto, mexendo nas rédeas sem motivo, olhando o horizonte com cara de quem estava prestes a encarar uma tourada. O cavalo de Maurício, um castanho manso chamado Trovoada, andava devagar, refletindo o nervosismo do dono.
— Tá tudo bem aí? — provocou Gabriel, rindo. — Você tá com a cara de quem vai pedir empréstimo no banco.
Maurício bufou, tentando disfarçar o nervosismo.
— Tô tranquilo, só não dormi muito bem.
Taylor mordeu um sorriso, já entendendo a cena. O homem estava uma pilha de nervos desde o café da manhã, e agora, ali no campo aberto, parecia que o mundo tinha encolhido e todas as palavras difíceis estavam entaladas na garganta dele.
— Dormiu mal ou tá ensaiando discurso? — provocou Taylor, piscando de canto.
Maurício o olhou com aquele ar de “pelo amor de Deus, cala a boca”.
— Não começa, Taylor…
Mas era tarde. Taylor, com o senso de humor afiado e aquele instinto de melhor amigo pronto pra botar fogo na lenha, já tinha decidido que não deixaria a oportunidade passar.
O grupo seguiu em silêncio por mais alguns minutos até que chegaram ao riacho, um espelho d’água calmo, margeado por árvores altas e flores silvestres. As cigarras cantavam alto, e o reflexo do sol transformava tudo em tons de ouro e verde.
Taylor parou o cavalo, puxou as rédeas e respirou fundo, como quem aprecia a paisagem.
— Vamos dar uma parada — disse, descendo do animal. — Diablo precisa beber um pouco, e a gente também.
Os outros três o acompanharam. Gabriel desmontou com agilidade e logo tratou de tirar o chapéu, jogando um pouco d’água na cabeça. James fez o mesmo, observando o horizonte com aquele ar de quem pensa em meio século de lembranças. Maurício, por sua vez, ainda em cima do cavalo, parecia indeciso entre fugir dali ou pular direto no lago.
Taylor fingiu ajeitar a sela, mas o sorriso no canto da boca o denunciava.
— Pai… — começou, inocente demais pra ser verdade. — O Maurício quer falar com o senhor.
A frase caiu como uma pedrada no silêncio do campo.
Maurício arregalou os olhos, o rosto ficando vermelho em dois segundos.
— TAYLOR! — rosnou, com a voz entre desespero e ameaça.
Gabriel, do outro lado, já ria antes mesmo de entender o contexto.
— Ih, rapaz… isso tem cheiro de encrenca boa.
James ergueu uma sobrancelha, virando-se devagar para o genro, com aquele olhar experiente que misturava paciência e autoridade.
— Quer falar comigo, filho?
Maurício engoliu seco. O coração batia tão alto que ele jurava que o cavalo podia ouvir. Tentou rir, mas saiu um som estranho, meio engasgado.
— Eu… é… sim, senhor James.
Taylor cruzou os braços, se encostando numa cerca de madeira e observando com a satisfação de quem estava assistindo a melhor comédia da semana.
— Fala, rapaz. — disse James, calmo. — O que é tão importante assim que precisa ser dito aqui, no meio dessa paisagem?
Gabriel deu um passo pra trás, segurando o riso.
— Ah, essa eu quero ver.
Maurício desceu do cavalo, respirou fundo, tirou o chapéu da cabeça e passou a mão pelos cabelos, nervoso. Os segundos pareciam horas.
— Senhor James, eu… — começou, com a voz falhando. — Eu… eu queria falar sobre…
Taylor, com a língua afiada de sempre, não resistiu:
— Fala logo homem!
— CALA A BOCA, TAYLOR! — Maurício respondeu, já sem filtro, arrancando gargalhadas de Gabriel que se encostou ao lado do genro e sussurrou:
— Deixa o garoto falar Taylor.
James, por outro lado, manteve-se impassível, apenas esperando. O silêncio se estendeu, e o som das cigarras pareceu zombar do rapaz, que respirou fundo e finalmente soltou tudo de uma vez:
— Senhor James… — começou, a voz firme, mas ligeiramente trêmula. — Eu… bom, o senhor sabe que eu e a Catarina estamos juntos há algum tempo. E eu a amo. Muito. Mais do que achei que fosse possível amar alguém.
James manteve o semblante neutro, mas um leve sorriso surgiu no canto dos lábios.

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