— Eu não preciso que você se meta na minha vida, nem venha bancar o pai só porque tem esse título! Lembre-se bem: eu, Víctor Laranjeira, nasci sozinho neste mundo, não tenho pai. Mesmo que você morra, não vou aparecer no seu enterro, então pare de me ligar.
O outro lado da linha ainda tentava falar, mas Víctor Laranjeira segurou o celular com força e o lançou contra a parede com toda a raiva.
O aparelho se despedaçou ao atingir o muro.
— Víctor, ele ainda é seu pai, tente conversar com calma...
— Cale a boca! Eu não tenho pai! Vou repetir: eu não tenho pai!
Kelly ficou tão assustada com a expressão feroz de Víctor Laranjeira que escondeu o rosto no meu colo, parecendo um passarinho assustado.
Juliana Silva chorava em silêncio. O rosto de Víctor Laranjeira estava tão pálido quanto uma folha, sem nenhuma expressão, sentado ali com as veias do pescoço saltadas, lutando para não explodir de vez.
O quarto de hospital ficou mergulhado num silêncio incômodo.
Peguei meu celular e fui pesquisar: febre alta dificilmente causa perda real de memória, a não ser que ultrapasse os quarenta e dois graus ou haja complicações como meningite.
Ou seja, se Víctor Laranjeira realmente estava ou não com amnésia, ainda era uma incógnita.
Ele conseguia convencer o médico, a Kelly e a Juliana Silva — mas não conseguia mudar os fatos.
Antes das duas voltei correndo para a empresa. Nem tinha me sentado direito e Cecí ligou, avisando que José Godoy tinha voltado e todos iam se reunir à noite, e que eu precisava comparecer de qualquer jeito.
Quando abri o celular, o grupo do pessoal estava uma verdadeira festa.
José Godoy foi meu amigo de infância, crescemos juntos, eu e Cecí. Depois da faculdade, ele foi morar fora, montou sua própria empresa — pelo que soubemos — e agora estava de volta para levar os pais para morar com ele.
— Francisca, lembra que o José te pediu em namoro logo depois que terminamos o colégio? Se não tivesse sido interrompido naquela época, talvez hoje vocês estivessem casados, com dois filhos lindos. Nem teria dado espaço pro Víctor Laranjeira, aquele ogro.

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