No entanto, o segurança, com aquele jeito de quem só cumpre ordens e segue princípios, parecia irredutível. Pensei melhor e resolvi deixar pra lá.
Troquei de roupa e saí do hospital. A luz do sol que veio de frente me fez semicerrar os olhos.
As provas para o processo de divórcio já estavam mais que suficientes. Agora, só faltava um advogado que realmente tivesse coragem de enfrentar Víctor Laranjeira.
Em Cidade B, nenhum advogado se atrevia a pegar meu caso. Então eu buscaria em outro lugar.
O país era grande demais para que eu não encontrasse um profissional adequado!
O carro saiu do estacionamento do hospital e foi direto em direção à empresa.
Eu achava que o lugar onde o segurança disse que eu ficaria era o dormitório da empresa.
Só descobri ao descer do carro que era, na verdade, um apartamento.
Não era grande — uns cento e cinquenta metros quadrados — mas tinha tudo, e cada detalhe da decoração parecia encaixar perfeitamente no meu gosto. Até a cor das cortinas me agradava imensamente.
O que mais me agradou: dali até a empresa, eram só dez minutos a pé.
No início, pensei em ficar ali só alguns dias. Com minha situação financeira, comprar um imóvel ou me hospedar em uma suíte presidencial nunca foi problema.
Mas a escolha de Fernando Gomes tinha me conquistado de verdade. Olhei para aquele teto que simulava um céu estrelado e, de forma até constrangedora, me rendi.
Sobre a cama, um conjunto de lençóis rústicos, sempre secos e lisos ao longo do ano. Quando me deitei, a textura áspera me trouxe um conforto especial — era o tecido e o estilo preferido meu e da minha mãe.
A varanda havia sido transformada em um jardim de inverno, com árvores de flores perfumadas como louro, jasmim, gardênia e dama-da-noite, exatamente como a estufa que meu pai construiu para minha mãe em casa.
Meu pai gostava de gardênias, minha mãe de louro, e eu, de jasmim.
Era outono. Os dois vasos de louro estavam floridos, exalando aquele aroma delicado e ao mesmo tempo intenso, capaz de preencher todo o ambiente.
Meus olhos, de repente, ficaram úmidos.
Todo ano, quando o louro florescia, mamãe fazia geleia de louro para mim. O sabor era doce e perfumado, e eu adorava passar no pão.
Este ano, o louro floresceu, mas eu jamais voltaria a provar a geleia feita pelas mãos da minha mãe.
É sempre assim: só quando a pessoa se vai é que a gente percebe o quanto amava. Depois, passa a vida entre saudade e arrependimento.



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