Minha mãe costumava dizer que os olhos são a janela da alma.
O bem e o mal de uma pessoa se refletem, de alguma forma, em seu olhar.
Singh tinha olhos grandes e profundos, com sobrancelhas proeminentes e pálpebras duplas, largas e bem marcadas.
Sua pele tinha um tom de chá claro, muito semelhante às feições de um indiano.
Naquele momento, ele me encarava, com seus cílios levemente curvados e um olhar profundo, que parecia transmitir uma devoção peculiar.
Mas também continha um perigo sutil e quase imperceptível.
Cecí apertou meu braço.
Desviei o olhar, sorri levemente e recusei com polidez.
— Agradeço a gentileza, mas não posso aceitar um presente tão caro do Sr. Singh sem motivo.
A aparição de Singh foi abrupta.
Como o único estranho no salão a chegar ostentando um enorme buquê de flores, ele atraiu a atenção da maioria das pessoas assim que surgiu.
E eu, que nos últimos seis meses havia passado por traição, divórcio e uma série de outros eventos, também era uma figura central de fofocas.
Ele me ofereceu as flores com uma solenidade que, para se comparar a um pedido de casamento, só faltava um anel e um joelho no chão.
Naturalmente, todos os olhares se voltaram para nós.
Rejeitado em público, um lampejo de frieza cruzou o fundo dos olhos de Singh, tão rápido que era impossível de capturar.
Como se nunca tivesse existido.
Mas eu o vi claramente.
Isso confirmou minha suspeita: aquele homem, Singh, não tinha boas intenções.
— Eu investiguei especialmente. Ouvi dizer que a senhorita está solteira, e eu também estou. Fui cativado pela Srta. Lobato à primeira vista. É apenas um pequeno gesto... A Srta. Lobato não me negaria sequer a chance de expressar minha admiração, negaria? — Seu português era bastante precário, e a escolha de palavras foi muito além do que eu esperava.

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