Achava que Dona Gomes tinha vindo cobrar algum tesouro de família, mas, na verdade, ela estava ali por causa da família Batista.
O aquecimento da sala estava generoso. Fui até a cozinha, preparei uma xícara de café, acrescentei um pouco de leite e a trouxe, colocando-a sobre a mesinha de centro.
— Me desculpe, Dona Gomes, não sou muito exigente com as coisas do cotidiano. Espero que compreenda.
Dona Gomes tirou o casaco, sentou-se com elegância no sofá e, apontando para o lugar à sua frente, fixou o olhar em meu rosto:
— Sente-se também. Agora entendo por que seu rosto me era familiar. Você é filha da Sheila Batista.
Já sabia que essa fisionomia não passaria despercebida aos olhos de alguém da família Gomes, velha conhecida dos Batista.
— A senhora conheceu minha mãe?
— Conhecer é pouco. Só que certas coisas do passado não precisam ser relembradas pelos mais jovens. Vim apenas lhe perguntar quando pretende retornar à família Batista. Uns dias atrás, em um jantar da família Gomes para a Batista, conversei discretamente sobre esse assunto com Dona Batista. O que houve já ficou para trás. Se você quiser e tiver o desejo de voltar, a família Batista está disposta a recebê-la.
Baixei os olhos, sentindo um frio interior.
Durante décadas, ignoraram meus pais. Agora que eles se foram, vêm dizer que tudo ficou para trás, que basta minha vontade para que a família Batista, com toda sua soberba, se digne a me aceitar?
Palavras que, de fato, deixam qualquer um indignado.
A família Batista talvez nunca tenha considerado que nem todos almejam se encostar aos poderosos. Pelo menos eu, Francisca Lobato, não sou assim.
Vivi muito bem sem a presença dos Batista. Ontem, hoje e amanhã, não preciso deles e jamais me rebaixaria pedindo sua aceitação.
Se fizesse isso, não mereceria ser filha dos meus pais. Nem eles teriam paz após partirem.

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