Debaixo da árvore, restava apenas Kelly. Ela estava ali, sozinha, parada, e em pouco mais de um mês sem vê-la, eu percebi que tinha emagrecido bastante; o queixo estava mais afilado. Suas mãozinhas estavam enfiadas nos bolsos do casaco, e a pontinha do nariz, avermelhada pelo vento frio. Aqueles olhos brilhantes ainda eram lindos, mas tinham perdido o brilho de antes. Seu olhar repousava sem qualquer emoção sobre as outras crianças, que brincavam ao longe; não demonstrava nenhum tipo de sentimento, como se fosse uma senhora à beira da morte.
Aquela figura tão solitária fez meus olhos arderem e um aperto dolorido tomou conta do peito.
Ela realmente tinha consciência de que sua doença era contagiosa, que poderia ser fatal para outros, e por isso não brincava com as demais crianças?
Esse tipo de compreensão em uma criança de sete anos era como uma pedra enorme esmagando meu coração, tornando difícil até respirar.
Erros dos adultos, mas quem pagava o preço era uma garotinha. Só de pensar nisso, meus dentes cerravam de ódio. A leve simpatia que eu começava a sentir por Víctor Laranjeira se transformava de novo em rancor e desprezo.
Não importava o quanto Víctor Laranjeira ainda me amasse, tudo o que ele fez era imperdoável. Nunca haverá perdão!
— Kelly — não consegui me conter e chamei seu nome.
Ela se assustou visivelmente, virou-se rápido e localizou-me com precisão. Naquele instante, vi surgir nos olhos dela um brilho conhecido.
— Kelly, por que está aqui sozinha? Vai brincar com as outras crianças — falei num tom suave, acenando para ela. — Venha cá, Kelly. Trouxe um presente de Ano Novo para você.
Ela deu dois passos na minha direção, mas parou logo em seguida. O brilho em seus olhos se apagou e voltou a ser tranquilo, quase indiferente.
— Obrigada, mas não precisa. Eu não quero — respondeu, calma.
Não convivi com muitas crianças, mas nunca vi em nenhuma delas um olhar tão sereno, nem vi criança alguma reagir com tamanha frieza e distância ao ouvir falar de presentes.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casamento de Mentira, Amor de Verdade