—Francisca, feliz ano novo!
—Francisca, já comeu esfirra hoje? Eu tentei fazer um pouco, igual você faz todo ano. Ficou meio feia, mas o gosto ficou bom, bem parecido com a sua esfirra.
—Acabei de ir ao cemitério visitar nossos três familiares mais velhos. Levei flores, frutas e esfirra. Acho que assim a gente comemorou o ano novo juntos, de algum jeito.
—A madrugada em Cidade B está tão fria que parece congelar o coração. Ah, durante o jantar de ano novo, Cesar Laranjeira ficou parado um tempão na frente do portão do nosso quintal. Ele não bateu, e eu também não convidei para entrar. O resto dos nossos dias vai seguir em paz, acho que é o fim mais digno para nós.
—Neve começou a cair, toda Cidade B ficou envolta numa luz alaranjada, está lindo demais. Você sempre amou noites de neve assim, pena que hoje não está aqui para ver. Francisca, me promete que, não importa onde esteja, vai cuidar bem de si mesma, vai se proteger.
—Passamos juntos cinco vésperas de ano novo. Pensando agora, que saudade… Com você em casa, até o ambiente parecia mais quente. Mas não se preocupe, aumentei a temperatura do aquecedor, já me acostumei, está tudo certo.
—Eu sei que não tenho mais direito de dizer isso, mas mesmo assim… Francisca, eu sinto muito a sua falta, muita, muita mesmo.
Havia também algumas fotos — quatro pratos e uma sopa do jantar de ano novo, tudo com uma aparência até bonita, uma travessa cheia de esfirras, algumas abertas mostrando o recheio, pareciam daquelas de carne com aipo que fazíamos todos os anos.
Por fim, uma mensagem de voz, só alguns segundos:
—Francisca, tô morrendo de saudade de você, não sei o que fazer, acho que vou enlouquecer de tanto pensar em você. Francisca, eu te amo, de verdade, acredita em mim.
A voz de Víctor Laranjeira soava um pouco turva, parecia ter bebido demais, embargada, como se estivesse carregando uma dor sem fim.
Li aquelas mensagens duas vezes, sentindo uma pontada amarga apertando o peito.
O amor já tinha se desgastado até acabar, mas foi alguém a quem já dediquei todo o meu coração. Chegar a esse ponto, não era desejo de ninguém.
Sem perceber, lembrei dos tempos em que estávamos juntos, nós três, uma família feliz, e meus olhos se encheram de lágrimas.

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