— Vamos ao hospital. Sua testa está um pouco avermelhada, talvez o ferimento esteja infeccionado.
Eu ia dizer que não precisava, que a pele era grossa e resistente, que em poucos dias estaria tudo bem.
Mas ele me lançou um olhar tão frio que, na hora, perdi a voz.
Chegando ao hospital, ele nem sequer pegou uma ficha. Levou-me direto ao consultório de clínica cirúrgica.
— Troquem o curativo dela.
Por coincidência, o médico era justamente aquele que cuidara do meu ferimento na noite anterior. Víctor Laranjeira também parecia conhecê-lo.
— Sra. Laranjeira? — O médico esticou o pescoço, olhando para fora, provavelmente à procura de Víctor Laranjeira.
Eu não fazia ideia de como explicar a situação, que por sinal estava bem confusa. Preferi ignorar o assunto e apontei para o ferimento.
— Doutor, está doendo muito aqui. Poderia verificar se está inflamado?
O médico abriu o curativo e deu uma olhada rápida.
— Não é nada sério. Provavelmente foi porque entrou água quando lavou o rosto hoje cedo — disse ele, chamando um médico residente para trocar o curativo.
A sala de curativos ficava em uma área interna. Fernando Gomes e o médico ficaram conversando do lado de fora.
Desde pequena, sempre tive ouvido aguçado. Mesmo com a porta entre nós, dava para captar o teor da conversa, ainda que as vozes não fossem tão nítidas.
O médico, em tom de fofoqueiro, perguntou:
— O que está acontecendo? Ela não era esposa do Víctor Laranjeira? O senhor, Sr. Fernando, está interessado nela?
Fernando Gomes manteve o tom frio de sempre:
— Mudou de profissão, doutor? Agora é repórter de celebridade?
— Mas, falando sério, Sr. Fernando, ela realmente é muito bonita. Só não entendo como foi escolher justamente o Víctor Laranjeira, aquele tipo de sujeito que não mostra o que realmente é...
Antes parecia calmo e educado, mas ultimamente anda sombrio e cínico. Se há alguém que representa perfeitamente esse tipo de contradição, é ele mesmo.

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