Que pena que aqueles tempos felizes ficaram apenas congelados na minha memória, impossíveis de serem revividos.
A partir de então, a cada novo ano, eu estaria sozinha, atravessando o longo e solitário feriado de Ano Novo.
Sem ter o que fazer, sem nem vontade de comer, eu me encolhia na cama, abraçada à foto dos meus pais, adormecendo ali mesmo.
E assim, dormia até a manhã seguinte.
Cecí foi a primeira a ligar, insistindo para que eu fosse passar o Ano Novo com a família Lima. Ainda disse que seus pais queriam me considerar como filha de coração. Agradeci, mas recusei.
Os tios eram pessoas muito bondosas, mas eu não conseguia enfrentar o afeto e a atenção deliberada deles.
Ver aquela família reunida, tão cheia de felicidade, era doloroso para mim.
Às dez horas, Víctor Laranjeira me ligou por vídeo, convidando para passar o feriado na casa deles. Se eu não quisesse ir, eles poderiam trazer tudo para o meu apartamento.
Fazia tempo que não via Kelly. Parecia mais alta e mais magra, e seus olhos pareciam ainda maiores. Não sei se era efeito de alguma doença, mas ela estava pálida. Apesar do convite, sua expressão não era de alegria.
Já Víctor Laranjeira estava animado, com os olhos brilhando e até parecia ter engordado um pouco.
— Francisca, olha só! Preparei os enfeites, aqueles com as palavras de prosperidade, está tudo pronto. Essas pequenas decorações foram feitas pela Kelly, ficaram lindas, não acha? E aqui, todos os pratos que você adora, vou preparar para você. Vem, Francisca, enquanto as outras famílias estão celebrando, nós três também podemos curtir juntos, o que acha? Vamos começar o ano com boas energias.
Eu olhava para a tela, via o vermelho espalhado pela casa, os pratos na cozinha, as frutas, as sementes e castanhas. Seria mentira dizer que não fiquei tentada.
Estava tão sozinha, queria muito ter alguém comigo nesse dia.
Mas me peguei pensando: hoje tenho companhia, amanhã também, e depois, nos milhares de dias que virão, como vou fazer? Não posso depender dos outros para viver.
Reprimi o impulso de aceitar.
O destino queria que, a partir desse ano, eu aprendesse a ficar só, a me acostumar com a solidão.

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