— Exatamente, essa é a minha maneira de receber as pessoas. O presidente se adapta, continua a comer; se não, por favor, fique à vontade para sair. Não tem essa de ser compatível ou não, mas se é pra falar em compatibilidade, sou eu que não estou à sua altura, por isso você sempre arranja pretexto para me provocar, buscando qualquer coisa para me atacar, como se eu não fosse digna de respeito. Não é o senhor mesmo que faz isso, Presidente Gomes?
— Presidente Gomes, sou uma mulher, peço que tenha um mínimo de cavalheirismo. Se voltar a me tratar assim, não importa o lugar, com ou sem plateia, vou retrucar na hora, sem me importar com aparências. Aliás, muitos comentam na internet que quando o chefe pressiona alguém até o limite, é porque está esperando que o funcionário peça demissão, não é mesmo?
— Presidente Gomes, se quiser meu trabalho, use-o; se não quiser, me demita. Mas eu mesma não vou pedir demissão, pode desistir dessa ideia.
Quando terminei, bati o garfo e a faca na mesa e recostei na cadeira, respirando fundo, um pouco ofegante.
— E peço que da próxima vez o presidente seja mais amplo de visão, não me veja como alguém fácil de manipular só porque pareço tranquila. De agora em diante, se voltar a me provocar, vou responder à altura, palavra por palavra!
Meu temperamento explodiu de forma inesperada, nem eu sabia direito por quê, mas foi um desabafo do fundo da alma.
Depois de extravasar, senti o peito aliviado, como se tivesse dissipado uma nuvem pesada. Meu corpo inteiro ficou mais leve, até os dedos relaxaram.
Fernando Gomes também largou os talheres, recostou-se, cruzou os braços e ficou me encarando, esperando que eu terminasse aquele discurso.
Então, ele ergueu levemente o canto da boca e deixou surgir um sorriso tão bonito que ofuscava os olhos.
— Pronto, desabafou? Finalmente está mostrando um pouco da verdadeira Francisca Lobato. Por que se submeter e seguir a maré? Você é quem é, ninguém e nada deveria ser motivo para reprimir sua essência. Viver é viver com autenticidade.
Fiquei perplexa com aquele ar de tranquilidade e um certo orgulho no rosto dele. Baixei o olhar e, pensando bem, comecei a entender.
Sempre que estávamos a sós, ele usava as palavras para me desafiar, várias vezes quase ultrapassando meus limites.
O motivo era que ele percebia que eu estava segurando emoções e queria que eu as deixasse sair.
— Então, presidente, o senhor faz isso de propósito?
— Pode entender assim.
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