O gosto metálico e salgado do sangue impregnava minha boca, viscoso e denso, tornando as náuseas que já me atormentavam ainda mais intensas.
De repente, não aguentei: vomitei.
Vomitei dentro do carro apertado, sobre Víctor Laranjeira, e sobre seu pulso ferido.
Eu quase não tinha jantado; após horas de digestão, restava pouca comida em meu estômago, e o que saiu foi, em sua maioria, um líquido esverdeado, ácido.
O cheiro dos restos de alimento, misturado ao sabor do sangue, tornava o ar quase irrespirável naquele espaço pequeno, sem ventilação suficiente.
— Para o carro, por favor, para agora! — gritei, incapaz de suportar aquela situação.
Víctor Laranjeira bateu na divisória do carro; o motorista obedeceu prontamente, encostando o veículo à margem da estrada e parando devagar.
Abri a porta, apoiei-me em um poste de luz, comprimi o peito com as mãos e vomitei novamente, dessa vez com mais violência.
Quando o estômago não tinha mais nada a oferecer, continuei a forçar, em vão, sentindo os músculos se contraírem inutilmente. Logo, desabei no chão, exausta, abraçada ao poste, as lágrimas escorrendo silenciosas pelo rosto.
Francisca Lobato, você é mesmo patética!
Víctor Laranjeira tirou o casaco sujo. O motorista limpou o pulso dele com uma garrafa d’água. Víctor acendeu um cigarro, encostou-se na grade e tragava fundo, um atrás do outro.
Fumaça o envolvia, ocultando sua expressão. Só a mão esquerda, pendendo ao lado do corpo, estava visível, fechada em um punho tenso, com veias saltadas como pequenas serpentes.
— Francisca, o que aconteceu agora... foi só... Eu não sei como explicar pra você acreditar. Pense que foi uma despedida, uma homenagem a um sentimento antigo que nunca teve fim, pode ser?
— Eu prometo que não vou mais ter nenhum tipo de contato com ela, você pode me vigiar, tudo bem? Por favor, vá ao médico, se demorar vai ficar cicatriz, não maltrate seu corpo desse jeito, tudo bem?
A voz de Víctor Laranjeira era rouca, como se duas chapas de ferro enferrujadas se esfregassem uma na outra, carregada de exaustão e resignação.
Ele repetiu o “tudo bem?” três vezes, pedindo meu perdão.

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