Perguntei ansiosa o porquê. Como a melhor amiga que cresceu com Cecília Lima, compartilhando segredos desde a infância – inclusive a primeira vez que ela ficou menstruada –, eu sentia que tinha o direito de ser a primeira a saber quem era a pessoa por quem ela estava apaixonada.
— Como assim você diz que nunca vai vê-lo na vida? Você pretende ter um namoro eterno sem casamento? Vou te falar, Cecília Lima, ainda que você concorde, eu jamais aceitaria isso, sem contar o que o senhor e a senhora Lima e o Asafe pensariam. Viver só de namoro, sem se casar, é uma vida incompleta. Não faça nada que te faça se arrepender depois — tentei convencê-la, com todo o carinho possível, como quem aconselha alguém muito querido.
— Não é nada disso. É só que ele não me ama. Amar é um sentimento meu, não dele. Ele não sabe e nem precisa saber. Sabendo que nunca ficaremos juntos, é melhor que cada um siga seu caminho — respondeu Cecí, com uma leveza que só me deixou ainda mais curiosa sobre quem seria esse homem cego para não enxergar o que tinha diante dos olhos.
Considerando os círculos de convivência da Cecí, era quase certo que o tal homem fosse algum herdeiro de uma família tradicional.
A família Lima, em Cidade B, não era a mais influente, mas tinha seu peso e prestígio.
Afinal, Cecília era a filha mais velha da família Lima: bonita, rica, inteligente — não importava o sobrenome do rapaz, ela com certeza seria uma excelente escolha.
Mas o amor é uma coisa estranha; quando se está apaixonado, nada disso importa — posição social, dinheiro, influência, nada tem mais valor que a paixão que pulsa no peito.
Casos de filhos de empresários apaixonando-se por garçonetes e jurando amor eterno já aconteceram mais de uma vez.
Não era de se estranhar que Cecí nunca quisesse me contar quem era o homem — tratava-se de uma paixão unilateral, um segredo só dela.
Senti pena dela e tentei consolar:
Disse que o mundo era grande, que havia muitos homens bons e que, em algum momento, encontraria alguém que a amasse de volta.
Desliguei o telefone e fiquei tão triste que quase chorei.
Amar em segredo é das coisas mais dolorosas: saber que não há esperança e, ainda assim, não conseguir controlar o coração.
Fiquei mais um pouco na cama, mas logo me levantei, fui me arrumar e decidi passar na casa dos meus pais para conversar um pouco.
Vesti um casaco grosso e saí.
Coincidentemente, a porta do apartamento em frente também se abriu.
Fernando Gomes tinha trocado por um sobretudo de lã curto, todo preto, como sempre, destacando ainda mais sua pele clara, quase luminosa.
— Feliz Ano Novo, chefe! Saindo cedo assim, vai trabalhar até em feriado?



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