— Em um dia tão especial, onde todas as famílias celebram juntas, será que não podemos passar o Ano-Novo juntos? Fica tranquilo, eu pago tudo, qualquer coisa que você quiser.
Essas palavras — “qualquer coisa que você quiser” — soavam irresistíveis.
Apesar de eu possuir uma quantia de dinheiro que a maioria das pessoas jamais conseguiria juntar nem em várias vidas, sempre fui econômica. A vida é longa, e ter uma reserva me dá segurança, sem falar no meu sonho de abrir minha própria empresa de tecnologia.
A voz de Fernando Gomes vinha carregada de nasalidade, provavelmente porque ele também acabara de acordar.
— E o senhor não vai comemorar o Ano-Novo com sua família?
— Tenho alguns assuntos importantes pra resolver.
Diante disso, meu coração ficou tranquilo.
Morando porta a porta, ambos solteiros, podermos atravessar juntos o Ano-Novo era quase perfeito. Pelo menos, um fazia companhia ao outro e ninguém precisava encarar a solidão.
Às vezes, as pessoas são assim: desejam coisas perdidas ou inalcançáveis e se apegam a esses sonhos.
Levantei rápido, fui ao banheiro, lavei o rosto. Não fiz maquiagem, só iluminei um pouco as sobrancelhas e passei um brilho labial discreto. Vesti uma jaqueta curta, confortável, combinando com uma calça jeans; prendi o cabelo em um coque alto, meio solto.
Ao me olhar no espelho, não pude deixar de sorrir.
A jovem refletida ali tinha olhos brilhantes, dentes perfeitos, cabelo sedoso e volumoso, pele iluminada — o visual simples de uma estudante universitária: jovial e delicada, cheia de graça.
Esse sempre foi o estilo que mais amei, desde o ensino médio até a faculdade. Depois de casada, passei a usar vestidos o ano inteiro, esquecendo daquele meu antigo eu.


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