Olhando para o rosto pálido de Fernando Gomes, fui tomada por uma reflexão profunda: ele estava tão doente que parecia caminhar na tênue linha entre a vida e a morte, mas mesmo assim insistia em assinar os papéis. Isso sim é o famoso “prefere perder a vida do que o dinheiro”!
Não era à toa que, tão jovem, já era um grande empresário. Realmente, sua visão era ampla.
Assinamos tudo sem problemas. Quando abri a porta do escritório para sair, vi refletida na parede de vidro sua figura debilitada.
Talvez fosse apenas um efeito distorcido do vidro, mas tive a impressão de que, num simples virar de cabeça, Fernando Gomes parecia ainda mais abatido.
Seus olhos encantadores haviam perdido o brilho, as pálpebras caíam sem força, as olheiras estavam profundas, os lábios cinzentos, o contorno do maxilar ainda mais marcado. Seu peito subia e descia tão fracamente que parecia poder parar a qualquer instante.
Minha maldita compaixão e bondade me impediram de cruzar a porta do escritório.
Pessoas bondosas sempre acabam se prejudicando um pouco mais.
No fim, não tive coragem de deixá-lo sofrendo. Afinal, minha natureza é essa. Resignei-me e disse, quase em lamento:
— Chefe, aguente só mais um pouco. Vou até a cozinha preparar uma canja bem quente para você.
— Diretora Francisca, será que não é incômodo demais? Afinal, isso não faz parte das suas funções.
— Esqueça esse negócio de função, por favor. Quando se morre, tudo perde o sentido. Estar vivo não é o que importa? — respondi, decidida, abrindo a porta e saindo sem olhar para trás.
Admito que falei isso de propósito.
Deixei os documentos assinados na minha sala e fui direto para a cozinha, pensando que não havia arroz nem outros ingredientes. Precisaria ligar para o supermercado e fazer um pedido.
Mas, para minha surpresa, a geladeira, que eu lembrava vazia, estava agora repleta de frutas e legumes frescos da estação. No armário, quatro grandes potes guardavam diferentes tipos e cores de grãos.
Quando foi que alguém abasteceu tudo isso? Eu não fazia ideia!
Aquilo não era uma emergência de saúde, era claramente algo planejado.
Não queria me sentir pressionada, mas não havia saída: não só uma canja, mas até um banquete eu teria que preparar, afinal, minha dívida com o chefe era enorme — só de ter salvo minha vida já foram várias vezes.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casamento de Mentira, Amor de Verdade