— Gostou de tocar na minha carne? — Fernando Gomes murmurou com um tom enigmático.
Fiquei surpresa e imediatamente prestei atenção à minha postura.
Ele realmente estava com o braço na minha cintura, mas era só isso, nada além.
O problema era a minha posição: segurava a panela com a mão esquerda, erguendo-a de um jeito estranho, enquanto a mão direita estava dentro do paletó dele, apertando o peito definido, sentindo toda a firmeza e calor até debaixo das unhas.
Era impossível negar: Fernando Gomes, além de ter uma aparência impecável, escondia sob a roupa uma pele quase luminosa, músculos firmes, um toque irresistível. Só de lembrar, dava vontade de suspirar.
Com aquela provocação de apenas seis palavras, senti o rosto queimar de vergonha. Retirei apressada a mão direita e tentei explicar, constrangida:
— Não, chefe, o senhor entendeu errado, foi puro instinto de sobrevivência, não era para ser um abraço. O senhor é tão importante, eu jamais teria a ousadia de abraçar desse jeito.
Apertei os dedos da mão direita, tentando disfarçar o embaraço, ainda sentindo nos dedos a maciez, a delicadeza e a firmeza daquele toque recente.
— Consegue o que quer e ainda faz charme — Fernando Gomes resmungou, desdenhoso. — Sai de cima, está pesando demais. Nunca ouviu falar em controlar o peso?
Retirei a mão sem graça, cutuquei a cintura dele com a ponta dos dedos e retruquei, indignada:
— Tenho 1,70 de altura e só cinquenta quilos, não é tanto assim, vai. Agora, chefe, como o senhor é duro desse jeito? Quase quebrou minhas costelas. Se eu não fosse flexível, ia acabar sendo a primeira pessoa do mundo a não morrer batendo a cabeça, mas sendo esmagada pelo próprio chefe.
Fernando Gomes afastou-se meio passo, levou a mão à cintura onde eu havia cutucado. A pele dele ficou ruborizada, o peito subia e descia com força. Por um instante, o olhar dele ficou feroz, como um animal selvagem. Num gesto brusco, empurrou-me para longe e saiu do cômodo.
Com esse episódio, o clima do jantar ficou bem menos harmonioso.
Só então percebi que a testa de Fernando Gomes estava marcada por uma mancha vermelha, como se tivesse levado uma pancada.
Pensei em perguntar como ele tinha se machucado, se queria passar algum remédio, mas o rosto dele estava tão frio, tão distante, que achei melhor engolir a pergunta — era certo que, se dissesse algo, seria alvo da língua afiada dele.


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