A palavra “obrigada” já estava na ponta da língua, mas acabei engolindo-a de volta.
— Está bem, eu entendi.
O motorista de Víctor Laranjeira também chegou, com o carro parado no acostamento, pisca-alerta ligado.
Ele ficou ali, em frente ao portão do prédio, olhando enquanto eu entrava no elevador.
Quando cheguei em casa, pendurei minha bolsa, servi um copo de água morna e sentei-me à mesa para beber, pensando em tudo.
Não havia dúvida de que José Godoy, sempre atento aos meus passos, aparecera no restaurante.
E Víctor Laranjeira? Por que, tão coincidentemente, ele estava lá também?
Terminei o copo d'água e, mesmo assim, não cheguei a conclusão nenhuma. Fui tomar um banho.
Depois do banho, sequei o cabelo, fui até a varanda fechar as janelas.
Foi aí que notei que o carro de Víctor Laranjeira ainda estava estacionado do outro lado da rua, mas agora sem pisca-alerta.
A distância era grande, a luz fraca, não dava para ver a placa com clareza. Mesmo assim, meu instinto dizia: era ele.
Na manhã seguinte, saindo para o trabalho, passei por lá e vi uma dúzia de bitucas de cigarro no chão.
José Godoy mudou de tática. Parou de mandar mensagens vazias e começou a enviar, toda manhã, um buquê de flores, e toda tarde, uma bebida quente diferente — tudo variando, mas sem nunca aparecer pessoalmente.
Bastaram três dias para que praticamente todos na empresa soubessem: o novo figurão do Grupo Godoy em Cidade B, o Diretor Godoy, estava me cortejando abertamente.
Isso me deixava profundamente irritada. Tirando o primeiro dia, quando Flávia aceitou as flores, joguei todas as outras no lixo ou repassei para algum entregador da cidade.

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