Desde criança, eu nunca tinha visto tanto sangue assim. O vermelho gritante me deixou com as pernas bambas e os olhos secos de tanto esforço para não chorar.
Víctor Laranjeira deu um passo para trás, escondendo a mão ferida atrás do corpo. Com um sorriso fraco, cheio de carinho e resignação, disse com voz vacilante:
— Não é nada, não olhe, Francisca. Fica calma, não faça escândalo. Fica longe de mim, você gosta tanto de limpeza, não se aproxime do meu sangue. Por favor, Francisca, afaste-se, mais um pouco.
As lágrimas, teimosas, brotaram dos meus olhos sem parar, não adiantava tentar enxugar.
Naquele momento, Víctor Laranjeira me fez lembrar de quem ele era antes — e um aperto dolorido tomou conta do meu peito.
Um homem tão bom como Víctor Laranjeira, alguém que seria capaz de arriscar a própria vida por mim... Como foi que ele pôde me trair? Como chegamos a esse beco sem saída?
Fernando Gomes logo apareceu com a equipe de emergência. O pessoal responsável pelo parque veio também, levando a mulher fora de si dali.
Os socorristas fizeram um curativo rápido em Víctor Laranjeira, colocaram-no numa maca e o levaram ao teleférico exclusivo de resgate.
Ele tinha ido ao parque sozinho. Com tanto sangue perdido, estava claramente exausto. Fui obrigada a acompanhá-lo ao hospital como sua familiar.
Quando o teleférico começou a se mover, vi Fernando Gomes de longe, parado, com o olhar fixo em mim.
Percebi que, nas costas dele, havia uma enorme mochila com um buquê de flores do campo — amarelas, azuis, roxas, vermelhas —, todas muito bonitas.
A ambulância nos aguardava ao pé da montanha, ligou a sirene e partiu velozmente para o hospital mais próximo.
Víctor Laranjeira estava de olhos fechados, a palma da mão direita virada para baixo e a mão esquerda apertando com força o pulso ferido. Os dentes cerrados, a mandíbula marcada pelos dentes cravados.
O estilete era afiado demais. Com todo aquele sangue, dava para ver que o corte era profundo, o ferimento grave.
Deve estar doendo tanto...
Sentada na parte de trás da ambulância, olhei o rosto de Víctor Laranjeira, tomada por uma angústia que não sabia explicar.
Em algum momento, ele abriu os olhos e, discretamente, tentou entrelaçar o mindinho do lado esquerdo ao meu.
Saí do meu torpor, puxando a mão de volta por instinto, evitando qualquer contato com ele.
Ele me salvou, sou grata.


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