— Isso é algo que um ser humano seria capaz de dizer?
Eu realmente não conseguia mais entender Víctor Laranjeira.
Diante dele assim, eu me sentia diante de um estranho absoluto.
Serena Cruz era a mulher por quem ele estaria disposto a sacrificar tudo, até mesmo me ferir. Como ele podia ser tão cruel?
Apertei a mão direita, juntei forças e me virei, desferindo um tapa estrondoso no rosto de Víctor Laranjeira.
Simplesmente achei que ele havia perdido qualquer senso de humanidade, merecia aquilo.
Víctor Laranjeira levou o tapa, mas ao invés de se irritar, sorriu, abrindo a boca para falar. Dei um passo à frente e, com a mão oposta, dei-lhe outro tapa, apontando o dedo para o seu nariz e explodindo:
— Víctor Laranjeira, você perdeu todo o senso de humanidade? Mesmo se ela não fosse a mulher que você ama, nem mesmo se fosse uma desconhecida, você não deveria ser tão frio! Juliana Silva maltrata Kelly, você maltrata a mãe da Kelly... Vocês dois, mãe e filho, são farinha do mesmo saco. Tão detestáveis!
Desabafei entre dentes cerrados. Víctor Laranjeira continuou com o rosto virado, os olhos escurecidos.
Liguei para o serviço de emergência, depois saí do depósito e voltei para a sala de estar para esperar.
A pequena Kelly estava encolhida num canto do sofá, com os olhos marejados. Quando me viu, estendeu os braços, pedindo colo.
Hesitei por um momento, mas fui até ela e a abracei.
Se nem isso eu fosse capaz de fazer, não seria diferente de Víctor Laranjeira.
Meia hora depois, luzes vermelhas e azuis invadiram a sala. Abri o portão da casa, e dois homens vestidos com jalecos verdes entraram carregando uma maca. Uma médica de jaleco branco segurava um cilindro de oxigênio. Os três seguiram para o depósito.
Serena Cruz já havia se vestido e estava deitada na cama. A médica pegou o estetoscópio, colocou nos ouvidos e perguntou:
— Abra a blusa, onde está doendo? Quando começou? Tomou algum medicamento? Tem alergia a algum remédio?
Serena Cruz ergueu as pálpebras, tentando responder, mas foi interrompida pela médica, que, intrigada, soltou uma frase que quase me matou de susto:
— Ué, mas não é aquela paciente com HIV? Nem parece estar tão mal assim. Por que não ficou no hospital?

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