As lágrimas, que eu mal tinha conseguido controlar, voltaram a escorrer de repente. Abracei Kelly com força, apertando-a contra meu peito.
Essa criança que cuidei com tanto carinho e amor por mais de cinco anos, que sempre esteve sob minha proteção, a quem nunca sequer repreendi, agora reagia com tanto medo a um simples gesto meu.
O que será que ela viveu nesses dias em que estive longe?
Acalmando Kelly enquanto ela comia, peguei o celular e fui para o quarto. Procurei o número do Víctor Laranjeira e liguei.
Ninguém atendeu.
Liguei então para Juliana Silva. Eu suspeitava que ela pudesse ter maltratado Kelly e precisava confrontá-la para defender minha filha.
Também não atendeu.
Por fim, tentei para Serena Cruz. Dessa vez, ela atendeu, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, sussurrou apressada, quase sem forças:
— Me ajude!
E desligou.
Fiquei olhando para a tela escura do celular, atônita.
A voz de Serena Cruz parecia fraca e distante. Kelly já tinha me dito que ela estava doente.
Então era sério. Ela realmente corria risco de vida!
Mas, se estava tão doente, não deveria procurar Víctor Laranjeira? Por que pedir socorro a mim?
O que começou como indignação acabou virando uma enorme responsabilidade em minhas mãos.
Meu instinto me dizia que Serena Cruz estava em perigo e precisava de ajuda.
Liguei de novo para Víctor Laranjeira, em vão. Para Junior Lacerda, o mesmo resultado.
Será que algo muito grave tinha acontecido?
Minha preocupação crescia, não por puro altruísmo, mas por respeito à vida.
Kelly terminou de comer toda a comida do prato, provou vários pedaços de carne e tomou uma tigela de canja. Suas mãos e pés estavam quentes, o rosto um pouco mais corado, mas ainda demonstrava medo.

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