Dois segundos depois da minha resposta, Víctor Laranjeira voltou à carga, alternando entre ligações, chamadas de vídeo e, de vez em quando, uma ou outra mensagem de áudio.
Não atendi, não ouvi, nem olhei. Deixei o celular sobre o criado-mudo, apaguei a luz e fui dormir.
Aquela noite de sono foi das melhores. Quando o céu começava a clarear, levantei para beber água e, por hábito, conferi o celular. Mais um vídeo de Serena Cruz, enviado de madrugada.
O conteúdo do vídeo mais uma vez abalou tudo o que eu pensava saber sobre Víctor Laranjeira.
Serena Cruz, completamente nua, tinha mãos e pés amarrados firmemente com fita adesiva amarela dessas usadas em mudanças, jogada no chão do banheiro. Da torneira, a água fria caía, formando uma camada espessa sobre o piso, que girava em um redemoinho pequeno, porém intenso, perto do ralo.
Víctor Laranjeira, também sem roupas, o cabelo molhado colado na testa, os olhos negros brilhando com uma fúria descontrolada. Ele empunhava um chicote, batendo com força no corpo de Serena Cruz.
O corpo magro de Serena, quase só pele e osso, ganhava marcas a cada golpe; o sangue escorria dos cortes, misturando-se à água fria e formando círculos escuros pelo chão alagado.
A cada chicotada, Serena Cruz soltava um grito de dor. Com o aumento das feridas, os olhos de Víctor Laranjeira pareciam ficar ainda mais sombrios, como se no fundo de tanta escuridão houvesse um traço quase imperceptível de excitação.
Assisti apenas à metade — minha mão começou a tremer violentamente, os dedos gelados como se fossem de gelo.
O Víctor Laranjeira que conheci era gentil e elegante; depois do reaparecimento de Serena Cruz, ele se tornou sombrio e irritadiço. Mas o homem do vídeo parecia um sádico para quem a vida alheia nada valia.
Especialmente aquele olhar assassino, os nós dos dedos pálidos de tanto apertar o chicote, assustavam até mesmo através da tela.
Era como se um doente mental estivesse usando a própria insanidade como justificativa para punir alguém.
Sinceramente, naquele momento, comecei a acreditar que Víctor Laranjeira era um psicopata — a loucura e o frenesi em seus olhos não mentiam.
Esse Víctor Laranjeira era ainda mais assustador do que o dia em que me amarrou na cabeceira da cama e cobriu meu rosto com o lençol.


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