No olhar dele, aquele mesmo olhar que um dia tanto me fascinara, havia agora um cansaço evidente — estava claro que não dormira a noite inteira.
— Obrigado, meus colegas já chegaram para me buscar. Pode comer tranquilo, vou tomar o café da manhã no avião.
O rosto dele pareceu vacilar, como se estivesse um pouco decepcionado. Mas não disse nada. Apenas me acompanhou até a porta, curvou-se para ajeitar meus chinelos e depois ficou em pé, segurando minha mala. Perguntou:
— Francisca, você... vai voltar, não é? Não sei por quê, mas estou com um pressentimento ruim. Parece que, se você sair agora, nunca mais vai voltar.
Quando era para me amar, ele não soube amar; agora que desisti, ele faz esse tipo de cena. Sinceramente, não faz sentido.
— Vou sim.
Ainda não conversamos sobre o divórcio, claro que preciso voltar.
— Certo. Então eu e nossa filha vamos esperar você em casa. — Ele sorriu, e nos olhos dele havia um brilho suave.
Não respondi mais nada. Saí de casa, ele veio atrás de mim em silêncio até eu entrar no carro do Fernando Gomes.
O carro já tinha rodado um bom trecho quando olhei pelo retrovisor e vi que ele ainda estava parado na porta de casa.
Alguns minutos depois, meu celular vibrou: uma mensagem de Víctor Laranjeira.
“Amor, quem é ele? Vocês dois vão viajar juntos?”
Achei graça, olhei para a tela e apertei a tecla de apagar.
— Não teve tempo de comer, né? Trouxe uma coisa para você no caminho. — Fernando Gomes me entregou uma sacola.
Peguei, abri e me surpreendi: leite quente, ovo frito no ponto certo e esfirras de camarão — exatamente o que costumo gostar.
— Chefe, como soube que eu gosto disso?
— Não sabia. Só comprei o que estava mais em conta.
...
A língua do chefe é mesmo afiada.
Ainda era madrugada, uma névoa fina pairava no ar, o trânsito estava ruim, e ele seguia concentrado, atento à estrada.


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