Júlia segurou a respiração.
— E depois?
— Depois, o meu pai voltou de uma de suas farras.
Quando o pai de Sérgio abriu a porta do porão, a água já estava quase a dois metros de altura. Se Sérgio não tivesse subido logo para a cama alta, quando o encontrassem, teriam apenas resgatado o corpo de uma criança afogada.
Os lábios de Sérgio se curvaram num sorriso sombrio.
— Mas ele também não fez isso por mim.
— O meu avô era muito rígido e conservador, jamais permitiria que filhos ilegítimos dividissem a herança da família Santana. Além do mais, o velho não tinha apenas um filho.
Júlia ficou um bom tempo sem conseguir dizer nada.
— Você nunca me contou essas coisas.
E na verdade, se não fosse por ele ter se mudado de volta para aquela casa por causa da doença, nos poucos dias em que chegaram a dividir a cama, Sérgio raramente havia tido pesadelos.
É claro que Sérgio nunca contaria aquilo, ele odiava demonstrar fraqueza.
Desde pequeno, não faltaram momentos em que ele chorou e fez birras.
Porém, para a mãe de Sérgio, até mesmo o choro devia ter hora certa, era apenas algo funcional.
— Quando eu estava no começo do fundamental, as brigas entre eles estavam no ápice.
— O meu pai simplesmente me colocou num internato, e eu só voltava para casa a cada seis meses. Ele e a minha mãe começaram a viver separados.
No início, os dois ainda conseguiam manter a paz.
— Mas não demorou muito e o número de mulheres ao redor do meu pai só aumentou, e os escândalos também.
— Eram mulheres de todos os tipos: recém-formadas, acompanhantes de balada. Nenhuma delas se comparava à minha mãe em origem, capacidade ou beleza. Mas o meu pai se apaixonava por todas, a ponto de até as secretárias da empresa zombarem da minha mãe, dizendo que ela não passava de um enfeite.
— Então, ela começou a descontar as frustrações em mim.
Sérgio foi drogado, jogado de propósito no jardim em pleno inverno para fazer as lições de casa, e, quando adoecia, o pai voltava para passar uns dias.
E tudo isso apenas por causa do status dele como herdeiro.
Foi Sérgio quem rompeu o silêncio com a voz áspera:
— Quero beber um pouco de água.
Ele esperou pesadamente por um instante.
Ao segurar o copo, o seu pulso tremia levemente, forçando-o a agarrá-lo com as duas mãos.
— Na verdade, eu não tive apenas coelhos. Também criei pintinhos, resgatei gatos de rua. Mas todos eles 'sumiram' do nada.
Júlia notou que o rosto dele estava mais tenso do que nunca.
— Teve uma época em que eu fiquei obcecado por construir casinhas para esses bichinhos. Cheguei a pedir ao motorista que comprasse muita madeira lá da terra natal dele.
— Uma vez, no aniversário do meu avô, ele perguntou ao mordomo o que eu andava fazendo ultimamente.
O resultado, era de se imaginar.
Sérgio não havia estudado administração, nem ido às aulas de francês. Passara o verão inteiro em casa, fazendo trabalhos de marcenaria.

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