O quarto ficou instantaneamente silencioso; apenas a luz quente e suave do abajur iluminava o pequeno espaço.
O ar lá dentro não cheirava a pólvora como lá fora, havia apenas um leve cheiro de desinfetante, limpo e reconfortante.
Renata caminhou lentamente até a cama e sentou-se devagar.
Os nervos que estiveram tensos durante todo o trajeto finalmente começaram a relaxar aos poucos, agora que ela estava verdadeiramente segura, que tinha visto o rosto dele e que tinha certeza de que ele estava a salvo.
Junto com o alívio, vieram a exaustão que invadiu todo o seu corpo, o frio e a leve dor aguda em suas antigas feridas nas pernas.
Ela abaixou a cabeça e olhou para as próprias mãos.
Vários arranhões finos e sangrentos nas costas das mãos eram especialmente visíveis sob a luz.
Eram as marcas que ela havia ganhado ao atravessar as montanhas e florestas, contornando caminhos obscuros e invadindo a área sem se importar com nada.
Mas ela não sentia dor alguma.
E não se arrependia nem um pouco.
Desde que pudesse vê-lo, desde que pudesse ter certeza de que ele estava seguro, desde que pudesse estar um pouco mais perto dele, aqueles machucados e aquele cansaço não significavam nada.
Renata encostou-se na cabeceira da cama e fechou os olhos. As imagens de toda aquela jornada passavam por sua mente repetidas vezes...
Desde o pânico ao ouvir do lado de fora do clube a notícia de que ele havia ido para a fronteira,
À sua determinação implacável ao fazer seu assistente investigar a localização, percorrendo quilômetros sem hesitar,
À sua teimosia ao ser parada no bloqueio e não desistir, rastejando pela montanha à noite,
Até o alívio quando foi finalmente descoberta, detida e levada até ele.
Todo o medo, o pânico e o tormento desapareceram no momento em que ela o viu.
A única coisa que ela tinha que fazer agora era esperar.
Esperar que ele terminasse o trabalho, que viesse até ela e lhe desse a resposta que ela queria ouvir.
Os minutos e os segundos se passavam lentamente.
De fora, ouvia-se ocasionalmente passos pesados, a estática dos rádios de comunicação e vozes curtas e vigorosas de relatórios. Cada som a lembrava do quão tensa estava a situação no campo de batalha lá na frente.
Renata não sentia o menor sono, apenas continuou sentada em silêncio na cama, de olhos abertos, observando o brilho amarelo do abajur.
Ela se perguntava como eles haviam chegado a ficar juntos.
Ela havia perdido a memória, esquecido todos os detalhes, esquecido todas as intrigas de amor e ódio, mas a dependência e a pulsação gravadas em seus ossos nunca haviam mudado.
Como agora. Mesmo estando em um lugar perigoso, mesmo que lá fora estivesse ocorrendo uma missão de vida ou morte, ela se sentia extremamente segura só de saber que ele não estava longe e que estava lutando para protegê-la.
Acontece que alguns sentimentos realmente transcendiam a memória.
Certas pessoas realmente ficavam marcadas na carne e no sangue; mesmo que se esquecesse de tudo, o coração voltaria a bater mais forte.
Ela não sabia por quanto tempo havia esperado, mas a escuridão da noite lá fora ficava cada vez mais profunda, e os barulhos que antes eram tênues tornaram-se gradualmente escassos. A tensão na linha de frente parecia ter diminuído um pouco.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Glória da Ex-Esposa
Ah não! Pq não continuam?????...