Instintivamente, Vivienne desliza as mãos para a barriga num gesto desesperadamente protetor, como se pudesse abraçar seus bebês através da pele. Gradualmente, sua respiração começa a normalizar conforme a realidade retoma seu lugar, embora o horror do pesadelo ainda pulse em suas veias. A visão grotesca parece ter sido gravada em sua retina com precisão cruel, não apenas um sonho nascido do medo da ameaça recebida, mas algo mais profundo, quase uma memória enterrada em algum canto escuro de sua mente.
— Foi tão real, terrivelmente real. — Vivienne murmura, com voz embargada, deixando-se cair novamente no sofá, enquanto tremores insistentes percorrem seu corpo. — Como se já tivesse acontecido, como se eu já tivesse vivido aquele momento. — Continua, sua voz falhando, enquanto seus olhos encontram a lua brilhando imponente através da janela. — Que horas são? — Pergunta, abruptamente, levantando-se num movimento brusco para alcançar seu celular. Seu coração parece congelar ao ver que já são quase dez horas. — O senhor Muller retornou? — Pergunta, voltando-se para Silvia, tentando mascarar sua crescente preocupação.
— Ainda não, senhora. — Silvia responde, prontamente, mantendo o tom formal. — O jantar está pronto. Deseja que eu o sirva agora? — Questiona, a postura impecável contrastando com a atmosfera carregada do momento.
— Não, vamos aguardar mais um pouco a chegada dele. — Responde, seus dedos já digitando uma mensagem ansiosa.
— Sim, senhora. — Responde, com profissionalismo, inclinando levemente a cabeça em sinal de respeito. — Com licença. — Acrescenta, deixando o ambiente com a mesma eficiência silenciosa que lhe é característica.
O silêncio do celular se torna uma presença sufocante, amplificando a inquietação de Vivienne até o limite do suportável. Seus dedos tremem enquanto tentam uma ligação, depois outra, e mais uma, cada toque sem resposta cortando fundo em sua alma. Cada tentativa frustrada só faz crescer sua preocupação, enquanto a voz da caixa postal se repete como um lembrete impiedoso de que algo está errado.
— Dominic, onde você está? — Sussurra, a voz quebrando com uma preocupação profunda que ela não consegue controlar.
Seu celular toca e, por um momento de pura esperança, seus olhos ganham vida. O brilho, porém, se extingue tão rapidamente quanto surgiu ao ver o nome de Joana piscando na tela.
— Vivi, comprei aquela pizza que você ama e estou indo te fazer uma visita! — Joana anuncia, com empolgação contagiante, assim que ela atende. — Precisamos comemorar, amiga. Consegui o emprego! Aquele que eu tanto queria! — Conta, sua voz transbordando uma alegria que só faz o coração de Vivienne apertar ainda mais, dividido entre a felicidade pela amiga e a inquietação que a consome.
— Parabéns, Jo! — Responde, tentando desesperadamente injetar entusiasmo em sua voz trêmula. — Mas não estou em casa agora. — Informa, rapidamente, seus olhos pregados na porta como se sua força de vontade pudesse materializar Dominic ali. — Posso te ligar amanhã? — Questiona, ansiosa para liberar a linha, temendo a possibilidade de perder uma chamada dele.
— O que está acontecendo? — Pergunta, diretamente, captando imediatamente a tensão mal disfarçada na voz da amiga. — Não ouse me dizer que está tudo bem quando claramente não está.
— Está tudo bem, Jo, juro. — Mente, descaradamente, incapaz de reviver o horror daquela caixa macabra, daquele pesadelo que ainda faz seu corpo tremer. — Amanhã passo aí sem falta. Comemoraremos sua conquista como você merece. — Promete, a culpa corroendo suas entranhas. Joana, sua rocha em todos os momentos difíceis, e ela nem consegue fingir alegria num momento de vitória da amiga.

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