Vivienne instintivamente se abaixa para juntar os cacos de vidro estilhaçados pelo chão, suas mãos tremem, enquanto tenta ocupar-se desesperadamente com algo que não seja aquela pergunta devastadora. Joana, notando o estado frágil da amiga, gentilmente a segura pelo braço e a guia até a cadeira.
— Me desculpa — Vivienne sussurra, sua voz quase inaudível, enquanto abaixa a cabeça, lágrimas silenciosas já embaçando sua visão.
— Está tudo bem! — Joana responde, com um sorriso triste, seu coração apertado pela própria falta de sensibilidade. — Me desculpa pela pergunta idiota. — Pede, buscando rapidamente a vassoura e a pá para limpar os cacos espalhados pelo chão.
— Por que eles me odeiam? — Dispara, sua voz embargada por anos de dor reprimida. — Sinto saudades de casa, embora lembre de poucos momentos em que me senti verdadeiramente amada pelo meu pai. Os raros abraços protetores dele sempre foram para mim como um tesouro precioso, um sinal de que, à sua maneira distorcida, ele me amava. — Acrescenta, sua garganta se fechando ao recordar a frieza cortante do pai e o silêncio doloroso da mãe diante dos maus tratos, mesmo quando ela tentava, compensar com pequenos gestos de afeto. — O que fiz para merecer isso? — Pergunta, enquanto busca respostas em memórias dolorosas. — Eu era tão feliz na fazenda, correndo livre em meio à plantação, mas assim que completei sete anos, fui brutalmente arrancada daquela vida, voltando para casa apenas nas férias, com sorte, pois se o colégio permitisse, eu passava as férias todas sozinha, esquecida. — Comenta, as lágrimas agora correndo livremente por seu rosto.
— Oh, querida, não chore! — Consola, envolvendo-a em um abraço apertado, sentindo o corpo da amiga tremer com soluços contidos. — Sinto muito fazer você reviver essas dores. — Lamenta, sua própria voz embargada pela culpa de ter aberto feridas tão profundas.
— Isso não deveria me machucar. — Comenta, tentando enxugar inutilmente as lágrimas que não param de cair. — Que diferença faz o meu pai ter apagado a minha existência, se, de fato, eu nunca fiz parte da família! — Continua, cada palavra carregada de tristeza. — Sempre senti que não pertencia àquela vida, àquela família, mas no meu íntimo, sempre me agarro com desespero às lembranças dos momentos bons, das migalhas de afeto, numa tentativa patética de me convencer de que tive uma vida feliz. — Murmura, jogando a cabeça para trás num gesto de derrota, lágrimas ainda escorrendo por seu rosto. — Amiga, obrigada por me escutar. — Declara, levantando-se com uma força que não mascara sua fragilidade interior. — Mais tarde te ligo. — Afirma, abraçando a amiga brevemente, como se temesse se quebrar completamente se permanecesse ali mais um segundo.
— Acho melhor você se acalmar primeiro. — Aconselha, seguindo-a até a sala com preocupação estampada em cada traço de seu rosto.
— Não se preocupe, estou calma. — Garante, sua voz controlada demais, denunciando a tempestade interior que a consome, enquanto abre a porta e sai rapidamente.
Mesmo que a distância até seu apartamento não seja curta, Vivienne decide caminhar pelas ruas silenciosas, tentando inutilmente acalmar seu coração despedaçado. Todas as dores que ela ingenuamente acreditava estarem reprimidas em algum lugar escuro de seu coração, começam a emergir com força, e tudo que está acontecendo em sua vida a está forçando, impiedosamente, a enfrentar aquilo do que vem desesperadamente fugindo, principalmente no último ano.
— O que o meu pai faria? — Questiona-se, seu estômago revirando ao cogitar a possibilidade de Dominic conseguir desenterrar seu passado. — Realmente me mataria? — Continua, um tremor intenso percorrendo seu corpo ao lembrar com dolorosa clareza das ameaças do pai.
Os pensamentos de Vivienne continuam a atormentá-la, enquanto caminha. Ela não consegue aceitar que suas simples escolhas tenham sido motivo suficiente para despertar toda aquela fúria cruel do pai. Em seu íntimo perturbado, questiona-se obsessivamente se existe algo mais, algum segredo enterrado por trás do último capítulo traumático que viveu na fazenda, antes de ser brutalmente forçada a se afastar de vez.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Escolha Certa com o CEO Errado